A minha experiência com o aborto aos 39 anos | De Mãe para Mãe

A minha experiência com o aborto aos 39 anos

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10 mensagens
Susana Alexandr... -
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Desde 26 Set 2022

Penso que testemunhos nunca são demais, há sempre uma mãe a precisar de apoio. Dei por mim há uns tempos a pesquisar informação e acho que nunca é demais. Por isso vim contar a minha história, na esperança que possa ajudar alguma mãe na mesma situação ou numa situação parecida <3
Tenho 39 anos (faço anos em Janeiro) e tenho 2 filhos de um casamento anterior. Estou com o meu actual companheiro há 4 anos - ele tem 32 anos e não tem filhos.
Em Dezembro do ano passado, depois de pensarmos uns largos meses sobre o assunto, decidimos tentar engravidar - na altura ainda tinha 38 anos. Como tinha o DIU Mirena, marquei uma consulta no CS para o retirar, no dia 16 de Dezembro de 2021. No mesmo dia a médica disse-me que tinha a vacina da rubéola em atraso, pelo que se tomasse a vacina e tirasse o DIU teria de esperar um mês para engravidar. E assim foi. Comecei os treinos desprotegidos no dia 18 de Janeiro. No dia 27 desse mesmo mês engravidei, na primeira tentativa. Estava a tomar ácido fólico, mas fumava e estava acima do meu peso normal. Tinha acabado de me restabelecer do Covid-19, por isso foi tudo em bom. Descobri a gravidez dois dias depois da falha da menstruação, em Fevereiro. Foram meses tortuosos, tive todos os sintomas e mais alguns que pareciam saídos de um filme de terror, mas aguentei! Tudo corria pelo melhor e no dia 26 de Abril, o mundo ruiu: o resultado da biópsia das vilosidades coriónicas deu positivo para T21., e já tinhamos o resultado da ecografia das 12 semanas com TN aumentada de 3,61. No dia 02 de Maio fui internada no HSFX e no dia 03 às 7 da manhã, dei à luz a minha menina, recorrendo a medicação. Foi a minha decisão, não espero que se identifiquem ou aceitem, mas que compreendam. Era uma Carolina. Passadas 5 horas, morreu o Brutus, o meu cão de 14 anos, com um linfoma. Acredito que não tenha sido coincidência e que estejam os dois juntos, ele a cuidar dela como sempre cuidou de mim. Fiquei de baixa um mês inteiro e a recuperação foi muito dura. Psicologicamente, acho que nunca se recupera verdadeiramente, fisicamente foi um martírio: anemia grave, dores de cabeça fortes, cansaço constante, parecia que o coração ia saltar fora do peito a cada passo que dava. Tinha a hemoglobina a 6, deveria estar a 12 no minimo. Fui ao hospital levar ferro por via intravenosa, porque o suplemento e a alimentação por si não eram suficientes. Passados 7 dias, andava em pé a partir móveis em casa, precisei de me sentir útil. O meu companheiro estava psicologicamente muito abalado, passámos 3 meses sem contar a nínguem da gravidez, à espera das 12 semanas e da ecografia e quando contámos, passados 10 dias estavamos no hospital para abortar. Ningúem nos prepara para sair de uma matenidade sem um filho. Não há livro, palavras, testemunho que consiga passar para fora o que sentimos, a dor. O morrermos um pouco por dentro, o estalo psicológico que sofremos e o calvário físico. O corpo continua a dar sinais de um filho que não chega.
Mas a vida leva-nos a mudanças. Deixei de fumar logo em Fevereiro e mantive-me firme! Comecei a fazer caminhadas, sozinha e acompanhada pelos meus filhos, emagreci 8 quilos, mudei a minha alimentação. Fui passar uns dias ao Gerês em Setembro para respirar. Acendi uma vela pela minha filha e pelo meu cão - eu que nem religiosa sou - e pedi-lhes que me ajudassem a ter uma criança saudável, que unissem esforços para me ajudar a ultrapassar a sua perda. Chorei muito. Não fazia ideia que já estava grávida de novo. Fim de Setembro, a confirmação: positivo! Mais uma esperança renovada, nova força! Durou pouco: logo na primeira ecografia, às 6 semanas, o coração estava a 60 BPM. Tudo o resto normal, o coração fraco. Repeti a eco duas vezes em mais duas semanas, na segunda o coração já nem a 20 BPM estava...na terceira, há uma semana e um dia atrás, já não havia batimento. Fiquei dormente. Porquê eu? Porquê nós? Porquê tanto sofrimento em 6 meses? Depois tive de mudar o foco para "Porque não eu?" Afinal não acontece só aos outros, o aborto é uma realidade que bate a todas as portas e é importante falar dele, deitar para fora, mostrar a realidade de quem se debate com tudo isto, mães mas também pais!
Depois de uma semana de espera para que o corpo fizesse o seu trabalho, no Domingo, dia 06 fui ao hospital com um aborto retido. Queria começar a escrever um novo capítulo da minha vida mais depressa do que o meu corpo estava a permitir. Já tinha reservado uma viagem para os Açores para Dezembro, tinha o aniversário da minha filha no dia 13/11 e não quis esperar mais pelo desfecho que eu já conhecia. Confirmaram com eco novamente a ausência de batimentos, deram-me 4 comprimidos Cytotec, fui ao Continente comprar resguardos e fraldas, almocei, coloquei dois comprimidos na vagina e dois na boca e deitei-me a ver o futebol. Comecei a perder sangue passada 1 hora e pouco. Fui ao WC várias vezes, saíram o que me pareciam ovos - que na realidade seriam coágulos, mais sangue. Permaneci surpreendentemente calma no processo todo. As dores e contrações continuaram até o dia seguinte de madrugada. Adormeci e no dia seguinte às 8 da manhã estava a trabalhar. Mas ontem percebi que preciso de tempo para me restabelecer fisicamente e pedi baixa - vou estar duas semanas em casa. Tenho mais dores de alma que dores físicas neste momento.Amanhã vou aos hospital fazer nova ecografia de controlo e tomar a injecção de imunoglubolina anti D, por ser fator resus negativo. Quinta-feira tenho consulta no médico de família para discutir próximos passos. Porquê? Porque vou tentar de novo. E de novo. Enquanto o meu corpo não desistir e eu tiver força mental, hei-de ter outro filho. Vou esperar uns meses, fazer os exames que tiver de fazer e quando estiver preparada a todos os níveis - eu e o meu companheiro - vamos ter um bebé. E vai ser lindo e saudável e mais uma alegria nesta casa.
Por isso mães e pais, chorem. Façam o luto. E quando for tempo, se desejarem muito uma criança, não desistam. Desistir não faz parte de nós. Um beijo no coração a todas as mulheres que passam por perdas, sejam elas de que tipo forem. Só não percam a esperança <3

Rita Costa3 -
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Desde 28 Jun 2021

Olá Susana.
Depois de por tanto se passar, admiro a sua força em não baixar os braços, acho que é uma excelente decisão!
Pessoalmente, em parte, revejo-me no que conta. Tenho 34 anos e, após perder o meu irmão, senti um empurrão para ser mãe. No ano a seguir à partida do meu irmão, em 2021, tive três abortos, o primeiro dos quais foi retido e tive que tomar cytotec. Foi um ano para esquecer. Ao final do segundo aborto foram feitas análises agora se detetar a causa dos abortos, o que se revelou serem trombofilias. Depois, um terceiro aborto, em dezembro... Gravidez anembrionária. Bem, terminei o ano disposta a deixar tudo de mau em 2021 e iniciar o ano de 2022 como se fosse uma vida nova, o que aconteceu. Confesso que ter ido fazer reiki me ajudou.
Bem, certo é que engravidei logo em Janeiro e, hoje, tenho uma menina linda nascida no mês passado ❤️.
Por isso, acho bem que se fale desta problemática abertamente e que não se desista porque a nossa hora chegará ☺️

Marchesa -
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Desde 03 Nov 2022

Olá Susana!

Obrigada pela tua partilha. 🌹 lamento que tenhas passado por isso, sei por experiência própria que todo o processo é muito difícil… mas não desistas, vais ver que a tua estrelinha vai chegar! Estamos juntas na luta❤️🍀boa sorte

MarianaZ1 -
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Desde 23 Ago 2022

Lamento muito a sua histório e desejo que tudo corra bem. Admiro a sua força e estou consigo. A nossa hora vai chegar!

Sobre MarianaZ1

AE - 08/22

a_lola -
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Desde 30 Set 2015

Vai acontecer 🙏🏻
Também ando a luta

Sobre a_lola

26.11.2015 treinos > 27.01.2016 HCG 576 > meu <3
01.2020 treinos > 03.2020 HCG+ > AR c/ curetagem 13sem
08.2020 regresso aos treinos > 09.2020 HCG+ > AE 6sem+3
10.2020 tiroidite de Hashimoto + défice antitrombina III (pausa)
08.2022 regresso aos treinos > 10.2022 HCG+ > AE 6sem+2

Rafaela Palmeira1 -
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Desde 30 Jun 2021

Obrigada pelo seu relato de força, esperança e coragem. Precisava mesmo ler isto, estou a passar pela 3° perda e espero ter forças para seguir a tentativa de realizar o sonho.

mem2012 -
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Desde 26 Jul 2012

Um abraço a todas, cada uma com o seu percurso. Felizmente as minhas perdas são sempre no inicio e apesar de custarem na mesma, tenho tentado por as coisas em perspectiva e identifico-me com a sua mensagem, aqui continuo na luta. Do meu 2º filho só à 4ª gravidez funcionou e ele veio, perfeitinho, agora o desafio está a ser semelhante. Tb faço os 40 em janeiro Sorriso vai ser o nosso ano! beijinhos

Lili_Anna -
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Desde 26 Out 2020

Um beijinho grande no teu ❤️ Susana.
Tenho histórica idêntica, e felizmente já com um final feliz 🙏🏻
(Dois AE espontâneos e uma IMG por T21 às 18 semanas.
Por isso, não percam a esperança. Acreditem que o universo se encarrega de repor a ordem. Força para todas ❤️

Lauzinha Ferreira -
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Desde 26 Dez 2021

Susana, obrigada pela tua partilha. Um abraço apertado. E desejo que consigam o vosso bebé milagre. ♥️

SGracieteM -
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Desde 15 Nov 2022

Obrigada pela sua partilha. Identifico-me em muita coisa da sua experiência. Faz hoje precisamente um mês que a minha menina partiu. Diagnosticada com T13.
até saber qual o problema da minha bebe não houve aceitação, visto que é a minha primeira gravidez. Muita revolta e todo mais. Com o tempo de espera para fazer os exames foi aceitando aos poucos até ao dia do exame ( a minha bebe ja nao estava viva).
1 mês depois, aceitei e compreendi que o meu anjinho era "incompatível com a vida" palavras usadas pela medica. Fisicamente recuperei bem, não passei por dores, e tive alta no mesmo dia da exposao do feto (com 16 semanas).
Estou ainda a espera da consulta para ver como estou. mas esta nos meus planos voltar a engravidar. espero co seguir.
Beijinho muito grande para si .

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