O tempo de qualidade entre pais e filhos é essencial! | De Mãe para Mãe

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O tempo de qualidade entre pais e filhos é essencial!

O tempo de qualidade entre pais e filhos é essencial!

Diana Costa Gomes, Psicóloga Clínica e fundadora do blogue Diana Costa Gomes, Psicóloga Clínica e fundadora do blogue "De Barriga Cheia"


A M chegou até mim sinalizada por suspeitas de hiperatividade com défice de atenção, e os seus pais mostraram-se surpreendidos com esta sinalização por parte da escola: “a M sempre foi uma miúda que quase não dava trabalho. É muito calma, gosta de ter as coisas arrumadas, de estar muito arranjada. É muito empenhada nas suas atividades – diz que quer ser bailarina quando for grande.”.

Nunca vejo as crianças sem ver, primeiramente, os pais. Não podemos trabalhar com as crianças sem trabalhar com os pais, por isso peço-lhes sempre para escolherem três adjetivos para descrever a criança. Quando me dão essencialmente “defeitos”, peço-lhes para me apontarem qualidades. É desconcertante verificar como muitos pais têm dificuldade em enumerar aspetos positivos da personalidade do filho.

Recebo depois a M. Chega vacilante, mas procurando mostrar firmeza na linguagem: ”Tu é que és a Diana?”. “E tu és a M!” – respondo. ”Os meus pais disseram-me que hoje não tinha atividades porque vinha aqui falar contigo!”..

Começamos então por aí, pelas suas atividades. Preenchemos juntas o seu horário semanal. “À segunda, quarta e sexta tenho ballet, às terças e quintas tenho dança criativa e depois ainda vou para a natação. Nos três dias do ballet tomo banho lá, porque tenho de ir a seguir para a expressão dramática e o piano, mas nem desmancho o coque. Se puser a rede fica direitinho quase o dia todo”. – conta a M. "Não está aqui o sábado nem o domingo!” - como quem me corrige. “Ao sábado tenho escuteiros e ao domingo natação. No resto do tempo não sei o que fazer!”. – termina. Não sei o que mais me assustou: se a saturação da sua agenda, se a consciência da sua incapacidade sobre o que fazer no resto do tempo.

Entrego-lhe uns lápis de cor e tenho de lhe dizer o que desenhar - a sugestão de desenho simples seria demasiado desorganizador para si, pois assim como a M não sabe o que fazer com o tempo livre, também não sabe o que desenhar quando lhe digo para “desenhar o que quiser”. A sua rigidez não lhe permite soltar-se, dar largas à imaginação ou pintar fora do risco (ainda, pois havemos de lá chegar!).


O tempo de qualidade entre pais e filhos é essencial! - Artigo de mae para mae


A M “está" com os pais de manhã, enquanto a penteiam para ir para a escola, e chega já de noite pelos braços dos avós, derreada pelo cansaço. Os pais nunca podem ir buscá-la à escola.

Debato-me, amiúde, com estas realidades. “Não há tempo!” - dizem-me. Com efeito, sabemos que o quotidiano é exigente, os compromissos laborais fartos, os horários tremendamente exigentes e a correria do dia-a-dia uma corrida de fórmula 1. Está tudo errado. Neste mundo louco, conjugar a parentalidade com a vida profissional parece uma tarefa inglória. Juntemos ao papel de profissional e pai/mãe, o papel de marido/mulher e dono/dona de casa e ainda de homem/mulher e temos um curto-circuito cerebral e/ou um turbilhão emocional.

Lembro-me de ouvir alguém teorizar que os dias têm 24h para serem tripartidos (8h para o dever; 8h para o prazer e 8h para dormir). Serão raros os “profissionais do tempo” que conseguirão fazer esta distribuição. Sou, todavia, da opinião de que não devemos ser fundamentalistas - esta não é uma questão matemática, mas sim de organização.

Todos nós desempenhamos vários papéis nas nossas vidas: cada um de nós saberá em que domínios investir mais tempo e dedicação… e estes não são necessariamente sinónimos. Quero, com isto, dizer que podemos investir em tempo de qualidade com as nossas crianças - pode ser muito mais sumarenta uma hora de estar (o verbo é escolhido propositadamente) do que uma tarde inteira. Temos, por vezes, muita dificuldade em conjugar este verbo e apenas “estar” – mas estar mesmo, olhar mas ver, ouvir mas escutar. Acredito que a chave esteja aí. Enquanto se está, está-se efetivamente (no trabalho, em casa, em recreio), pelo que sejamos honestos para connosco.

Ao fim do dia, quanto tempo desperdiçamos “não estando” e quanto tempo perdido se soma não estando no aqui e no agora, querendo desempenhar vários papeis em simultâneo? A nossa gestão do tempo não se reflete apenas no tempo de qualidade que oferecemos aos nossos filhos. Não há cheques-prenda da melhor loja de brinquedos que se compare à melhor prenda que podemos oferecer aos nossos filhos (e a nós mesmos).

Pais, não me interpretem mal: sim, ter atividades extracurriculares é ótimo mas, e se, de vez em quando, as trocarmos por tempo em família? O currículo de todos agradece!


Artigo originalmente publicado na segunda edição da Revista De Mãe para Mãe.