O papel da reabilitação pélvica no pós-parto | De Mãe para Mãe

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O papel da reabilitação pélvica no pós-parto

O papel da reabilitação pélvica no pós-parto | De Mãe para Mãe

Ana Luísa Henriques, Fisioterapeuta especialista em Reabilitação Pélvica e Saúde da MulherAna Luísa Henriques, Fisioterapeuta especialista em Reabilitação Pélvica e Saúde da Mulher


O puerpério (nome dado ao pós-parto) é um marco muito intenso e exigente na vida de qualquer mulher e casal.

Nesta fase, para além da alteração hormonal decorrente da gravidez ainda se fazer sentir, a mulher poderá vivenciar desconforto pélvico, que facilmente assumirá como normal se não estiver devidamente consciencializada para as problemáticas que o parto pode acarretar.

É comum pensar-se que apenas o parto vaginal representa risco para o desenvolvimento de uma disfunção pélvica. Porém, deve ter-se em consideração que, durante a gravidez, a alteração hormonal ocorre no sentido de relaxar todas as estruturas pélvicas (músculos e ligamentos) e o peso a que estas estão sujeitas, podendo originar uma alteração na função do pavimento pélvico, independentemente do tipo de parto.

Contudo, as disfunções mais prevalentes inerentes ao parto vaginal podem relacionar-se com a possível existência de uma episiotomia (corte cirúrgico a nível do períneo) e lacerações perineais.

A episiotomia gera, frequentemente, desconforto e dor pélvica, uma vez que existe retração muscular e tecido cicatricial associado. Neste sentido, é de extrema importância que se proceda à sua massagem - com uma abordagem externa e interna - aquando da sua cicatrização. Desta forma, conseguir-se-á recuperar a mobilidade dos tecidos afetados pelas fibroses e prevenir possíveis desconfortos aquando da penetração no regresso à atividade sexual, juntamente com a ajuda de um lubrificante à base de água.

A intervenção na cicatriz representa um dos primeiros cuidados a ter no pós-parto. Além de diminuir consideravelmente o desconforto, previne o surgimento de outras disfunções pélvicas comuns, também associadas a uma musculatura pélvica tensa exponenciada pela resposta defensiva do organismo, durante o processo de cicatrização.

Nestes casos, as perdas involuntárias de urina em quadros de esforço podem ter, também, como origem um pavimento pélvico hipertónico.

A obstipação pode ser justificada pelo mesmo motivo, e em todas as disfunções inerentes a uma musculatura pouco elástica e flexível, não será producente a realização dos conhecidos exercícios de Kegel (contração dos músculos do pavimento pélvico) com o objetivo de a fortalecer.

É importante ressalvar que qualquer disfunção pélvica não está automaticamente associada a uma musculatura mais fraca, com a necessidade primária de ser fortalecida. Assim, facilmente se percebe que estes exercícios, que promovem maioritariamente a força e aumento de tónus muscular, não são aconselhados em todos os casos. Será necessário que a primeira intervenção seja feita no sentido de alcançar a flexibilidade e o relaxamento.

Outro fator de risco inerente ao parto vaginal relaciona-se com o alongamento excessivo da musculatura do pavimento pélvico aquando da passagem do bebé pelo canal de parto. A sensação da musculatura pélvica mais relaxada e frouxa pode fazer-se acompanhar de prolapsos dos órgãos pélvicos (descida do útero, bexiga e/ou recto), dando origem a uma sensação de peso no baixo-ventre, frequentemente acompanhada por presença de corpo estranho a nível vaginal.

Relativamente aos partos por cesariana, a maioria das queixas reportam-se à dor gerada pela cicatriz abdominal. Assim, é importante que, após a cicatrização, se tenha o cuidado de a massajar diariamente com alguma pressão, para que desta forma a mulher consiga recuperar a sensibilidade muitas vezes afetada.

Possíveis alterações do esvaziamento da bexiga poderão surgir, assim como quadros de dor pélvica durante a penetração, uma vez que o tecido cicatricial e fibroso apresenta menos colagénio e menor mobilidade, ocupando espaço na região abdominal inferior.

A Reabilitação Pélvica tem vindo a assumir um papel de destaque na prevenção e tratamento das disfunções pélvicas associadas ao pós-parto, prometendo resultados promissores através de exercícios e técnicas de terapia manual especializadas e individualizadas. Desta forma, é possível promover a saúde pélvica feminina, devolvendo a qualidade de vida a todas as puérperas que assumem as suas queixas como normais.


O papel da reabilitação pélvica no pós-parto


Sabia que...

…deve usar um lubrificante à base de água durante a penetração nos primeiros meses após o parto, de forma a colmatar a diminuição da lubrificação vaginal associada à alteração hormonal gerada pela amamentação?


Como fazer um exercício de Kegel corretamente?

Numa posição confortável, deverá sentir que a sua musculatura vaginal e anal se comporta como um elevador de 4 andares. Para contrair, deverá sentir o encerramento da vagina e ânus, e a subida até ao 4.º piso. Para relaxar, deverá sentir que é capaz de “descer” até ao rés-do-chão. Não deverá solicitar os músculos abdominais, adutores (parte interna da coxa) ou glúteos (nádegas).




Artigo originalmente publicado na terceira edição da Revista De Mãe para Mãe.