Diversificação alimentar | De Mãe para Mãe

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Diversificação alimentar

Susana Cardoso, NutricionistaSusana Cardoso, Nutricionista.


O leite materno deve ser o primeiro alimento que o bebé ingere e, sempre que possível, exclusivo até aos seis meses de vida. No entanto, aos 4 ou 6 meses de idade (dependendo dos bebés e das recomendações do pediatra) introduzem-se novos alimentos.

O bebé humano nasce com um gosto inato para o doce e uma aversão ao amargo. A preferência pelo salgado vai-se desenvolvendo a partir do segundo semestre de vida e o gosto pela fruta desenvolve-se também nessa altura, de forma progressiva, entre os 6 e os 18 meses. Por outro lado, a relutância em aceitar novos sabores (neofobias alimentares) acentua-se a partir do 1º ano de vida e, para além do sabor, também o tipo e a textura do alimento condicionam o grau de neofobia.

No entanto, podemos contrariar estas preferências inatas através da experiência precoce, da familiarização com o sabor e da variedade alimentar. O feto está equipado para reconhecer sabores voláteis da dieta materna e esta capacidade de reconhecimento de sabores traduz-se num nível de aceitação mais fácil dos mesmos quando administrados aos bebés frutos dessas gestações. A passagem desses mesmos sabores através do leite materno também é importante, pois confere ao lactente amamentado uma maior capacidade para se adaptar à diversificação alimentar, nomeadamente a sabores de frutos e vegetais, desde que as mães os consumam enquanto amamentam.


Estratégias de aceitação de novos sabores

A capacidade de o bebé aceitar novos sabores vai aumentando à medida que se vai familiarizando com esse sabor. São precisas, em média, 11 tentativas para finalmente ter sucesso, pelo que se deve encorajar a persistência na oferta alimentar. A estratégia de “se não gosta, não ofereço e só lhe apresento o que sei que ele gosta“ não funciona para a aquisição de uma paleta mais variada de alimentos. A janela para a habituação aos sabores é estreita, começando a fechar-se pelos 2 anos e encerrando aos 3 anos. Para induzir a modificação do comportamento alimentar (geneticamente determinado), devemos encorajar a variedade.


Diversificação alimentar - Artigo de mae para mae


A diversificação alimentar - quando e como começar e como continuar?

A cronologia da introdução dos diferentes alimentos não pode ser rígida e deve ter em consideração uma série de fatores de ordem social e cultural, tais como os costumes de cada região, as questões socioeconómicas, o temperamento da criança, a disponibilidade do agregado familiar e ainda particularidades do lactente como alergias ou patologias.

A partir dos 6 meses torna-se mais difícil para os lactentes atingirem as suas necessidades nutricionais através do aleitamento materno exclusivo e passa a ser necessário diversificar a alimentação, permitindo uma transição entre uma alimentação exclusivamente láctea e a familiar. Nesta altura, a maioria dos latentes está preparado, em termos de desenvolvimento e maturação, para aceitar outro tipo de alimentos.

Entre os 5 e os 8 meses ocorre uma transição progressiva das funções oromotoras com a passagem da sucção para a mastigação e, a partir deste período, o lactente desenvolve a capacidade de mastigação, devendo esse processo ser estimulado de modo a facilitar a integração na alimentação familiar. Se a sua introdução não ocorrer até aos 10 meses, aumentará o risco de dificuldades na alimentação, com impacto negativo em idades posteriores.

A passagem de uma dieta rica em gordura, característica do aleitamento exclusivo, para uma dieta rica em hidratos de carbono induz, só por si, adaptações hormonais significativas, com repercussões no processo de crescimento e exigências de adaptabilidade digestiva. É importante ter em consideração que existem “janelas de oportunidade” para o desenvolvimento de todas estas capacidades e para o treino da aceitação de alimentos diferentes do leite. A ausência deste treino poderá comprometer todo o processo de diversificação alimentar e aumentar o risco futuro de dificuldades na alimentação.

É importante, porém, relembrar que não há regras rígidas nem verdades absolutas e que é preciso ter em conta princípios gerais para, depois, ser capaz de adaptar as recomendações à realidade de cada lactente e de cada contexto sociocultural. De qualquer forma, a diversificação alimentar não deve ser iniciada antes das 17 semanas nem depois das 24 semanas de vida.

Uma diversificação alimentar efetuada no momento certo, através da introdução de alimentos de consistência, densidade energética e em nutrientes adequados, administrados numa quantidade e com uma frequência corretas, será o garante de uma oferta energética adequada e nutricionalmente equilibrada que, em última consequência, garante a estimulação do apetite e a procura de novos paladares e texturas para a vida.

É importante, porém, relembrar que não há regras rígidas nem verdades absolutas e que é preciso ter em conta princípios gerais para, depois, ser capaz de adaptar as recomendações à realidade de cada lactente e de cada contexto sociocultural. De qualquer forma, a diversificação alimentar não deve ser iniciada antes das 17 semanas nem depois das 24 semanas de vida.


Quando introduzir cada alimento?

As recomendações atuais vão no sentido da não introdução de glúten antes dos 4 nem após os 7 meses, devendo a introdução ser gradual e preferencialmente acompanhada pela manutenção do aleitamento materno. Tal como as fórmulas infantis, também os cereais (a partir do 6º mês) deverão ser enriquecidos em ferro, de forma a reduzir o risco de ferropenia ou anemia ferripriva prevalentes nesta fase do crescimento.

Assim, a diversificação alimentar é iniciada, entre o 5º e o 6º mês, com um caldo ou puré de legumes. Sugere-se que, no 1º dia, se coloque batata, cenoura e cebola e se vá acrescentando um legume diferente a cada 3 dias, verificando sempre se existe reação por parte da criança. O espinafre, o nabo, a nabiça, a beterraba e o aipo contêm elevado teor de nitrato bem como de fitato, razão pela qual só deverão ser introduzidos a partir dos 12 meses de idade.

Dentro do grupo dos fornecedores de proteínas de alto valor biológico incluem-se a carne, o peixe e o ovo. A carne é um importante fornecedor de ferro hémico, que previne a deficiência em ferro, e tendo em conta que as reservas de ferro podem esgotar-se entre os 4 e os 6 meses, é aconselhável a introdução de carne (preferencialmente de aves - como frango, peru e avestruz – e coelho) aos 6 meses de idade. A introdução do peixe, por sua vez, deverá iniciar-se depois do 6º mês, com a oferta de peixes magros (pescada, linguado, solha ou faneca).

A introdução destas fontes de proteína animal deve iniciar-se no caldo/puré de legumes, com porções de 10g e aumentando gradualmente até atingir a dose de cerca de 25-30g de carne ou peixe isentos de gordura por dia. Poderá ser oferecida toda numa refeição do dia (almoço) ou metade desta dose nas duas refeições principais. Idealmente, deverá ser oferecida carne 4 vezes por semana e peixe nos restantes 3 dias.

A partir do 7º mês, poderá adicionar-se a dose recomendada de carne ou peixe a preparados tais como farinha de pau ou açorda e, nos dois meses seguintes, essa dose poderá ser adicionada a arroz branco ou massa, cozidos com legumes. A textura deverá ser progressivamente menos homogénea de forma a estimular o desenvolvimento.

O ovo entra na alimentação aos 9 meses, altura em que se introduz, de uma forma progressiva e lenta, a gema. Deverá ser consumida apenas até 1 gema de cada vez e não deve ser excedido o número de 2-3 gemas por semana. Para além disso, a utilização de gema numa refeição, obriga à ausência de oferta de qualquer outra fonte de proteína animal (carne ou peixe), mesmo na fase inicial de introdução. A clara poderá ser introduzida a partir dos 11 meses, devendo ser protelada a sua introdução para os 24 meses caso haja história individual de atopia.

Os frutos, por sua vez, são o primeiro alimento a ser introduzido em alguns centros europeus. A maçã e a pera (cozidas, assadas ou em vapor) e a banana são, habitualmente, os primeiros frutos a serem utilizados. Os frutos ricos em vitamina C deverão ser consumidos em simultâneo com legumes ricos em ferro ou cereais, pois aumentam a absorção do ferro não hémico. Durante o primeiro ano devem ser evitados os frutos potencialmente alergogénicos ou libertadores de histamina (morango, amora, kiwi, maracujá).

Os frutos devem ser oferecidos individualmente, de forma a permitir o treino do paladar. Devem ser consumidos inteiros e não sob a forma de sumo - a água deverá ser a única bebida nos hábitos alimentares do bebé. Devem apresentar-se, em cada dia, frutos de cor variada, de forma a garantir a mais completa variedade nutricional. E tal como em relação aos legumes, os frutos devem ser introduzidos gradualmente, verificando sempre se existe reação por parte da criança.

O iogurte é um alimento lácteo fresco obtido pela fermentação do leite por bactérias e contém leveduras. Com um importante papel pré e pró biótico, é um alimento bem tolerado, protetor de infeções intestinais e regularizador e protetor da flora cólica. Muito embora o leite de vaca em natureza (pasteurizado e UHT) nunca deva ser introduzido antes dos 12 (preferencialmente 24 - 36) meses, estas características do iogurte, a pequena porção em que deve ser consumido diariamente (150-200 ml), a facilidade de utilização e as vantagens para a flora intestinal permitem a sua introdução cerca dos 9 meses num lanche, em alternativa ao leite ou papa. Deve ser natural, sem aromas nem quaisquer aditivos de açúcar ou de natas.

As leguminosas secas, concretamente o feijão, a ervilha, a fava, a lentilha e o grão, são uma importante fonte nutricional pelo seu teor em proteína vegetal e em hidratos de carbono complexos. Poderão ser introduzidas entre os 9 e os 11 meses de idade (inicialmente o feijão fradinho, branco ou preto e a lentilha) sempre previamente bem demolhadas. Num lactente a efetuar uma dieta vegetariana, a sua introdução deverá ocorrer mais precocemente.


E as bebidas?

Enquanto principal regulador térmico, imprescindível à adequada realização de todas as funções vitais, a água deverá ser oferecida ao lactente várias vezes por dia. Em contrapartida, está formalmente contraindicado o uso de outras bebidas (chá ou sumos), assim como também não é recomendada a inclusão de sal nos preparados culinários durante o primeiro ano de vida.


A reter!

Ingerir uma grande variedade de alimentos saudáveis, defender a amamentação prolongada e estimular a persistência na apresentação de alimentos, ainda que rejeitados pelo lactente no início da diversificação alimentar, bem como enfatizar a necessidade de variar os sabores e texturas, no decorrer de todo este processo, é algo que as grávidas e lactantes devem ser incentivadas a fazer. Após a diversificação alimentar, é necessário que a criança tenha um adequado suprimento proteico e energético, que garantirá um crescimento adequado e de acordo com o programado.


Artigo originalmente publicado na segunda edição da Revista De Mãe para Mãe.