Compreender e lidar com as birras | De Mãe para Mãe

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Compreender e lidar com as birras

Compreender e lidar com as birras

Hugo Rodrigues, Pediatra e Fundador do Blogue Hugo Rodrigues, Pediatra e Fundador do Blogue "Pediatria para todos"


As birras são um comportamento normal das crianças pequenas, mas que causa, muitas vezes, uma grande ansiedade aos pais. Por esse motivo, é importante perceber o que são, verdadeiramente, e o que se deve fazer nessas situações.


O que são?

As birras são, simplesmente, uma forma que as crianças têm de captar a atenção dos adultos e, seguidamente, convencê-los a fazer a sua vontade.

Trata-se de um comportamento habitual e perfeitamente saudável, que surge numa fase específica do desenvolvimento infantil, a partir dos 15-18 meses de idade. Nessa idade, as crianças são ainda muito pouco verbais, utilizam poucas palavras. No entanto, entendem praticamente tudo o que lhes é dito e comunicam bem através da linguagem não-verbal.

As birras surgem neste sentido: são uma espécie de “teatro”, que serve para conseguir arranjar “reforços”, para fazer prevalecer a sua vontade. Por esse motivo, funcionam sempre melhor quando têm mais espectadores a assistir (no hipermercado, no centro comercial, em casa dos avós, entre outros).

Ao contrário do que algumas pessoas pensam, as birras não são sinónimo de má educação, são completamente normais. De qualquer forma, aos pais e educadores cabe o papel de mostrarem que o caminho não é esse, que as birras não são a solução para todos os problemas.

Não existe propriamente uma idade a partir da qual as birras desapareçam. De qualquer forma, habitualmente elas vão agravando progressivamente até aos 3 anos e depois melhoram de forma progressiva, mas muito lenta.


O que fazer?

Há várias formas de lidar com uma birra, sendo que alguns princípios gerais são os seguintes:

• Não demonstre como a situação a afeta.

As crianças gostam muito de ativar os adultos. Aliás, a palavra certa é mesmo ativar. Elas sabem perfeitamente quais os comportamentos e contextos que os deixam mais vulneráveis e vão usá-los em proveito próprio, de forma muito inteligente.

• Não perca o controlo.

Se a reação do adulto for muito espalhafatosa, a criança percebe que está a controlar a situação. Assim, deve tentar antecipar isso e manter-se calmo e fiel às suas decisões.

• Seja consistente.

As birras vão repetir-se diversas vezes, pelo que a consistência nas diferentes alturas é uma arma extremamente importante. Só assim vai conseguir passar as suas ideias, para que a criança as entenda e respeite.

• Não ceda (por rotina).

As cedências nestes contextos acabam por funcionar como uma recompensa. Assim, a criança vai perceber que, se fizer uma birra, consegue o que pretende, repetindo-a sempre que precisar de convencer os adultos.


Compreender e lidar com as birras


Depois de garantidos estes princípios, deve então encontrar uma estratégia para lidar com a situação..

Provavelmente, a forma mais eficaz será ignorar. A birra só funciona bem se tiver espectadores. Por esse motivo, a melhor solução quando uma criança está a fazer uma birra é ignorá-la. Pode e deve dizer, de forma tranquila, algo que desvalorize a situação (por exemplo: “Estás a fazer uma birra, portanto eu vou sair. Quando acabares eu volto.”). Como é lógico, esta atitude só é válida se a criança estiver em segurança - essa é a prioridade. A seguir, a criança vai gritar ainda mais alto - para ver se volta a captar a atenção - mas acabará por parar.

Na verdade, nenhuma criança ganha nada em chorar se estiver sozinha e é por isso que esta é a forma mais eficaz de fazer com que a birra termine. Depois, deve conversar com ela e explicar que a solução não pode ser esta, pois este não é um comportamento adequado. Deve reforçar a ideia de que gosta muito dela, para lhe dar segurança, mas não da birra.

Outra opção poderá ser tentar desviar a atenção da criança com algo de que ela goste. Isto funciona melhor se for uma criança pequena, porque quanto mais velha a criança, mais difícil é de distrair. De qualquer forma, se se conseguir fazê-lo costuma funcionar bem..

Por fim, uma terceira opção é falar com a criança no momento, explicando que gosta muito dela, mas não da birra em si. Pode ajudar dar um abraço na altura, enquanto se explica, para transmitir algum conforto à criança.

No entanto, nem sempre é fácil reagir assim, seja porque o adulto está transtornado com a situação, seja porque a criança está pouco recetiva a esse tipo de comportamento. Por esse motivo, é uma estratégia mais difícil de adotar e com uma eficácia mais variável.

Como conclusão, gostaria de reforçar a ideia de que, apesar de as birras serem normais, não é por isso que se devem permitir sem corrigir. Não é um processo imediato, mas com mais ou menos trabalho consegue-se ensinar que o caminho não é esse!


Artigo originalmente publicado na segunda edição da Revista De Mãe para Mãe.