As familias e os ecrãs | De Mãe para Mãe

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As familias e os ecrãs

Sylvia de Sousa GuardaRosário Carmona e Costa, Psicóloga Clínica, especialista em psicologia da web e cyberbullying.


3 inquietações a acalmar e 3 erros a evitar


Não há como contornar… Esta é a era! A era do contacto diário e constante com ecrãs, a era do interativo, a era do imediato, a era do “tudo-à-distância-de-um-click”. Antes, os nossos filhos só sabiam fazer uma coisa melhor do que nós - aproveitar o momento – e agora sabem mais uma: utilizar de forma hábil cada uma das tecnologias que têm ao seu dispor.

Independentemente de esta competência o fascinar ou assustar enquanto mãe, o que é verdadeiramente importante é que possa aproveitar para parar, refletir, rever o seu quadro de valores e decidir-se por práticas parentais que, por um lado, protejam e promovam o desenvolvimento do seu filho e, por outro, possam tirar o maior proveito de tudo o que a tecnologia pode trazer de bom.

É frequente, em consulta, ouvir algumas ideias confusas acerca das novas tecnologias, acolher os medos e sugerir melhores práticas para contornar os erros mais comuns. Deixo-lhe, neste artigo, os 3 principais de cada categoria:

  1. Se permitir que o meu filho tenha acesso aos ecrãs, ficará viciado.

    É muito frequente os pais chegarem à consulta com a crença de que o filho tem um problema com os ecrãs. “Ele é viciado naquilo” ou “ele está mesmo dependente” são frases que ouvimos de pais que estão a ter dificuldade em gerir o tempo que os filhos passam no computador e nos telemóveis, bem como em conseguir que cumpram um conjunto de tarefas que definem como prioritárias. Ora, não se trata do acesso aos ecrãs mas, sim, dos limites que, necessariamente, precisam de ser impostos. Crianças que utilizam novas tecnologias, que têm acesso à Internet, ao computador e a um conjunto de aplicações que vão ao encontro dos seus interesses poderão beneficiar de tudo o que estas acrescentam ao seu desenvolvimento desde que, desde cedo, os pais: a) definam as regras – e tempo – da sua utilização e b) promovam, paralelamente, um leque variado de interesses e atividades.

  2. Prefiro que o meu filho não utilize a Internet porque está exposto a demasiados perigos.

    Não há como negar que também a vida online e virtual apresenta perigos às crianças (e a todos nós). No entanto, é um mito que os privemos de ter contacto com esta vertente do dia-a-dia como atitude protetora uma vez que, com isso, não estamos a ajudá-los a desenvolver estratégias para lidar com os perigos e dificuldades online, não estamos a aproveitar a oportunidade para conversar sobre o mundo virtual e sermos bons modelos de utilização, nem tão pouco estamos a torná-los peritos numa utilização cuidada e protegida. E é melhor que se desengane: se ele não utilizar em casa, irá fazê-lo nos telemóveis dos amigos ou nos computadores da escola nas restantes 8 horas do dia que passa longe de si.

  3. Se o meu filho utilizar a Internet, redes sociais ou jogos virtuais vai ficar um “bicho do mato”.

    A reflexão acerca da utilização das novas tecnologias tem sido feita, também, à luz do efeito nas competências sociais dos seus utilizadores. Se é verdade que uma utilização excessiva conduz necessariamente a algum isolamento, é mais verdade ainda que uma utilização regrada não só não afeta a qualidade e manifestação das suas competências sociais, como as potencia tendo em conta o efeito de identificação com os pares e a forma como encontram mais pontos em comum com outros da mesma faixa etária. No final de contas, a utilização das novas tecnologias deve fazer parte da vida dos nossos filhos de forma equilibrada e como outra atividade qualquer, quase como apenas mais uma plataforma em que ele é e se comporta exatamente como na vida real - só passa a ser um problema quando introduz desequilíbrio nas rotinas do dia-a-dia ou serve para satisfazer necessidades e camuflar dificuldades a que a vida real não dá resposta.


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  5. É um erro esquecer o brincar livre.

    A capacidade de a criança se envolver em brincadeiras não estruturadas é fundamental para o seu bom desenvolvimento (e, do mesmo modo, de o adolescente/adulto ter momentos de escape que não são prévia nem excessivamente estruturados). Ao depararmo-nos com situações pouco estruturadas, com regras pouco claras, desenvolvemos capacidades de organização, de comunicação, de estruturação, que não seríamos capazes estando sempre em contacto com atividades com regras rígidas e bem definidas. A capacidade de negociação e de cedência não é permitida num jogo online em que as regras estão definidas - perante a falha, segue-se o “game over”. A capacidade de inventar novas regras para um jogo que não está a resultar muito bem (porque o menino com quem jogo tem características diferentes) não tem lugar num jogo de telemóvel e acontece, não raras vezes, que a criança se sinta insegura em situações pontuais do dia-a-dia com limites e regras menos claros, precisamente porque está habituada a que esteja tudo muito bem definido (infelizmente esta necessidade de estrutura e de conhecimento das regras dos jogos virtuais não se verifica na aceitação e cumprimento de regras de comportamento na vida real).

  6. É um erro não permitir o aborrecimento.

    Como seria bom continuar a ouvir crianças dizer “não tenho nada para fazer”…! Todos os pontos anteriores deixariam de ser um problema! É importante que tenhamos momentos de “nada para fazer”, de encontro connosco próprios, de diálogo interno, de imaginação para dar a volta à situação. Por que razão terão os pais tanto medo que a criança se aborreça? Precisamos que a criança se aborreça enquanto criança para aprender a lidar com isso nesta janela importantíssima do seu desenvolvimento, já que é inevitável que se venha a aborrecer no futuro (quem não?!) e que tenha adquirido e aprendido a ativar os recursos para lidar com essa frustração. Creio que este ponto poderá ser clarificado um pouco mais à frente.

  7. É um erro não recuar à infância dos pais.

    Parece que a maioria dos pais se esqueceu como sobreviveu a uma infância sem um tablet ou sem os vídeos do youtube. Entrou na sua infância, para efeitos de lazer e entretenimento, uma competência absolutamente fundamental: a imaginação! Existe um número sem fim de brincadeiras que podem surgir quando as crianças não estão sujeitas aos limites impostos pelo que a tecnologia lhes está a propor. Por outro lado, este exercício dos pais recuarem à sua própria infância também os aproxima dos seus filhos: contar como era, o que fazia, relembrar as asneiras, relembrar os brinquedos e como se construíam, voltar a construir com os filhos aquilo que foram as invenções da sua meninice e que, no fundo, contribuíram para o adulto que é hoje;

Seja qual for a crença de uma família, cultivar a espiritualidade, os laços com os diferentes membros da família e das diferentes gerações e o contacto consigo mesmo, no silêncio e na ausência de estímulos, está diretamente relacionado com o desenvolvimento harmonioso. Esta experiência de solidão, de esvaziamento de si próprio, não pode ser atingida online, pelo que as crianças precisam de tempo offline para cultivar e desenvolver a sua relação consigo mesmas, treinar a capacidade para refletir e examinar, e aprender que estar sozinho não quer necessariamente dizer estar aborrecido, só ou assustado. Neste aspeto, a natureza pode ter um papel fundamental.

A maioria dos adultos relata que é através do contacto com a natureza que consegue ir ao fundo de si mesmo, relativizar, admirar a grandeza das coisas… e um documentário, mesmo em alta definição, pode empurrar-nos para um certo passeio mas certamente não nos permite escalar a montanha desde o sofá. Da mesma maneira que um jogo online de estratégia não nos ensina a sobreviver da mesma forma que uma aventura pela floresta!

Assim, lembre-se, traga a tecnologia para dentro de casa, aproveite-se de tudo o que nos traz e acrescenta mas não se esqueça do botão mais importante para nos deixar ON relativamente àquilo que mais interessa: o OFF!


Artigo originalmente publicado na segunda edição da Revista De Mãe para Mãe.