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Adeus, Fraldas!

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Vera RamalhoVera Ramalho, Psicóloga com especialização em psicoterapia e diretora do Psiquilibrios.


O treino de higiene, vulgarmente conhecido como desfralde, é uma etapa muito importante da vida da criança e uma conquista sua. Esta perceção pela criança conduz a um treino bem-sucedido, mais do que as expectativas e a pressão dos pais ou do infantário, mas os adultos também aprendem a adaptar-se ao temperamento da criança, gerindo os seus avanços e recuos. São momentos do desenvolvimento infantil que temos de olhar como oportunidades de crescimento para todos.

Ao contrário de muitas outras aprendizagens ligadas às rotinas quotidianas que a criança aprende a partir dos 18 meses, a aprendizagem do controlo dos esfíncteres e a retirada da fralda pode ser dificultada por três motivos principais: não tem nenhuma recompensa automaticamente associada (pelo menos não para a criança), é uma aprendizagem imposta pelos adultos e obriga a criança a interromper uma brincadeira ou a levantar-se da cama para ir à casa de banho. Nenhuma das situações é, neste sentido, motivadora. Por isso, é importante que a família sinta o desfralde como algo positivo e que seja capaz de mostrar à criança que é sinónimo de crescimento.

Um conceito central à questão do controlo dos esfíncteres é a chamada prontidão. Brazelton (1982) sugeriu que a prontidão ocorre entre os 18 e os 36 meses e apontou um conjunto de critérios psicológicos e fisiológicos para a aquisição destas funções. Os fatores fisiológicos incluem o controlo reflexo dos esfíncteres e o trato mielizador e piramidal, que estão completos entre os 12 e os 18 meses (para a maior parte das crianças) e irão permitir que a criança reconheça e controle as sensações corporais.


A prontidão psicológica inclui:

  1. A capacidade motora de sentar e andar.
  2. A aquisição da linguagem (por exemplo, ser capaz de compreender e seguir instruções e usar algum tipo de linguagem para comunicar).
  3. A identificação e imitação dos cuidadores.
  4. Uma relação positiva com os cuidadores, que promova o desejo de agradar.
  5. O desejo de ser autónomo.


Para que o desfralde tenha sucesso, é importante considerar os seguintes pontos:

  • Não precipitar o processo, mas, uma vez iniciado, não se deve interromper.
  • Uma vez retirada a fralda, não se deve voltar atrás e, por comodismo, recorrer à mesma aquando de uma saída de casa. Isso pode confundir a criança e atrasar o desfralde.
  • Se a criança ainda não apresentar os primeiros sinais, é melhor deixar passar mais algum tempo. Estes sinais incluem o anúncio de que sujou a fralda, mostrar-se incomodada com a fralda suja, evitando sentar-se, saber nomear as partes do corpo, ter consciência de que está a fazer chichi ou cocó (ou agachar, ficar quieta ou muito vermelha) e ter a fralda seca depois da sesta da hora do almoço durante cerca de duas semanas.

Quando achar que está tudo pronto, comece a falar sobre o desfralde com a criança, mencionando que ela está a crescer e que vai fazer chichi no pote.

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Estas são algumas técnicas para a familiarizar com a situação e ser bem sucedida:

  • Leve a criança consigo para escolher o pote a comprar ou decore-o com ela.
  • Leia-lhe uma história sobre o tema.
  • Certifique-se que tem em casa um bacio, um redutor de sanita, cuecas-fraldas, roupas rápidas de vestir e despir e um pequeno banco para que a criança consiga chegar ao lavatório.
  • Aproveite para lhe ensinar a lavar as mãos com regularidade.
  • Crie uma rotina e defina alguns horários para ir ao pote (ao acordar, a meio da manhã, antes do almoço, etc.). Se perceber movimentos da criança que indiquem vontade, pergunte se quer fazer xixi, mas não de 5 em 5 minutos, e leve-a à casa de banho. Insistir demais pode criar ansiedade na criança.
  • Explique que, quando ela quiser fazer xixi, deve apertar e chamar o pai/a mãe.
  • Exemplifique, sentando-se na sanita, o que a criança deverá fazer, de modo a servir de modelo.
  • Depois de usar o pote, ensine a criança a despejar o conteúdo na sanita e a descarregar o autoclismo, tudo com naturalidade e satisfação.
  • Se achar que a criança se sentirá mais motivada, crie um quadro onde de cada vez que ela tenha uma vitória cole um autocolante. Decore o quadro com imagens relacionadas com o tema e que mostrem como deve fazer.

    Também é importante que:

  1. Elimine qualquer atitude punitiva e, pelo contrário, mantenha o reforço positivo sempre que ela faz no pote.
  2. No caso de saídas prolongadas, pode vestir-lhe uma cueca-fralda, mas é importante que continue com a rotina do pote e que não diga à criança para fazer na fralda.
  3. Não retire a fralda de dia e de noite ao mesmo tempo. O controlo do esfíncter diurno é diferente do noturno. A maior parte das crianças não conseguem ter o controlo do esfíncter noturno antes dos três anos.
  4. Não retire a fralda numa fase de mudanças significativas na vida da criança como uma mudança de infantário ou o divórcio dos pais.

Mesmo depois da criança retirar a fralda, podem acontecer deslizes ou acidentes. Encare com naturalidade, não critique e diga que da próxima vez vai correr bem.

Em caso de acidente:

  1. Não ralhe e explique por que é que aconteceu, pedindo à criança para ajudar a trocar a sua própria roupa.
  2. Nunca diga à criança que ela é porca, suja ou burra.
  3. Nunca ameace a criança se ela não fizer no pote.
  4. Não compare as crianças umas com as outras, nem mesmo no caso de ter gémeos.

Dê muito amor e carinho à criança e mostre que está contente e que acredita nela. Se a criança não colaborar ou não conseguir agir corretamente não force e procure ajuda de um profissional porque alguma coisa pode não estar a correr bem. Este processo exige tempo e paciência.


Artigo originalmente publicado na quarta edição da Revista De Mãe para Mãe, em julho de 2020.

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