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Retrato de SU NEVES
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Desde:
19.11.2012

E se fosse consigo???

Boa tarde meninas sei que este não e um tema novo mas gostava de ouvir outros pontos de vista. A mim como a todas nos nos claro sempre nos preocupa o facto de pudermos vir a ter um filho com trissomia 21 ou outras necessecidades especiais. Do que tenho lido por aqui algumas concordam em abortar outras não. Ate ai tudo normal o que me faz confusão e que os argumentos são sempre ( essas crianças são muito meigas muito inteligentes muito isto muito aquilo) mas o que eu sinto quando penso nisso e como e que ela se sente nesta nossa sociedade que esta a evoluir e certo mas ainda muito atrasada. A mim faz me muita confusão e penso e se fosse comigo? Na escola eu diferente de todos na rua no supermercado na minha independência...Não será também um egoísmo da nossa parte levar um gravidez adiante sabendo que existe uma grande probabilidade de ter um filho deficiente? Atenção estou mesmo a por a questão nesses casos ora se uma pessoa não tem indicação nenhuma não vai advinhar. Desculpem o testamento mas gostava mesmo de saber opiniões talvez eu tenha a mente fechada pro assunto e as vezes ouvir uma opinião diferente faz nos ver as coisas de outra forma. Fico aguardar as vossas opiniões

2001 nasceu o meu Leandro
Treinante 2º viagem desde 09/2014

Retrato de Marina4
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Desde:
15.05.2016

eu respeito completamente que faz interrupção.
Mas eu não faria, porque há doenças 100 000 vezes piores...porque só a trissomia é que tem tanta atenção? Assisti e assisto a essas doenças na minha família daí saber do que estou a falar...há deficiências profundas, que nem imaginamos...
agora a trissomia depende, há uns fetos que tem grave malformações cardíacas e outras e nem teriam hipótese, agora se está tudo , e o único problema é a trissomia, parece eugenismo (mas é para mim, cada um faz o que quer)

Retrato de Sara.rs.90
Offline
Desde:
21.08.2015

Marina4 escreveu:
eu respeito completamente que faz interrupção.
Mas eu não faria, porque há doenças 100 000 vezes piores...porque só a trissomia é que tem tanta atenção? Assisti e assisto a essas doenças na minha família daí saber do que estou a falar...há deficiências profundas, que nem imaginamos...
agora a trissomia depende, há uns fetos que tem grave malformações cardíacas e outras e nem teriam hipótese, agora se está tudo , e o único problema é a trissomia, parece eugenismo (mas é para mim, cada um faz o que quer)

E as doenças que normalmente estão sempre associadas a essa trissomia. Não estou muito dentro do assunto, mas segundo a pouca informação que tenho existem muitas complicações associadas e parece haver diferentes graus (se não é literalmente assim que me corrijam porque como já disse não estou mesmo dentro do assunto). No meu percurso escolar tive várias crianças com trissomia 21 nas minha turmas, tive uma menina que era a Inês que a única diferença entre ela e nós era a aparência pois era uma criança igual a nós (tirando o pormenor que estava na 4ª classe com 8/9 anos e ela já tinha 16). Todos eles mostravam graus de "profundidade" diferentes, tivemos um rapaz que era o João que ele era completamente enfiado no mundo dele, não falava, quando falávamos com ele às vezes revirava os olhos para conseguir olhar para nós, babava-se imenso e as aulas eram passadas com ele a brincar com canetas. De fora todos nós podemos dizer o que fariamos e o que deixariamos de fazer mas quando estamos dentro do assunto é que vemos como a coisa pesa. Eu não me vejo capaz de fazer uma IVG, é um assunto que me atromenta e deixa-me super triste pensar que teria que tomar uma decisão dessas (ainda mais por estar a passar por uma gravidez não planeada que de inicio abalou-me muito e foi-me colocada essa opção também por uma médica devido a um ferimento no colo do útero que me foi descoberto já na gravidez) mas acho que se me visse numa situação dessas eu não hesitaria por mais difícil que fosse. É uma tremenda responsabilidade. Será uma pessoa dependente sempre de alguém para o resto da vida. Pode parecer frio o que vou dizer mas acho que no mundo animal existe a selecção natural por algum motivo, selecção essa que deixou de haver na raça humana e não sei até que ponto é que isso é justo. Não sei.. É um assunto demasiado complexo e tão profundo que acho que nem que estivéssemos aqui a debater todos os pontos prós e contras não íamos deixar de concordar e concordar com tanta coisa que ia ser dita por todas as partes. É uma assunto bastante complicado. Mas tal como a escritora do tópico, acho que nesse ponto tenho uma mente retrograda e não iria ter coragem de me expor emocionalmente, expor a minha família e expor uma vida "incapaz" a tal situação só por uma situação de falta de animalismo e instinto de sobrevivência. Lamento se de alguma maneira posso chocar alguém com o que disse mas vejo as coisas assim desta maneira e vivo assim dessa maneira. Não tendo nada a ver mas da gravidez da minha filha não tive problemas alguns e de inicio até tinha um trabalho bastante pesado, desta gravidez não faço quase esforços nenhuns e tive um descolamento de placenta de 80% devido ao saco ser demasiado pequeno para o tamanho do embrião e quando a médica me disse no hospital que eu poderia fazer repouso mas que pelo tamanho do descolamento que às vezes há coisas que a natureza faz que sabe o que está a fazer. Optei por não fazer repouso pois segundo a médica o mais certo era acabar por não dar em nada (nem medicação alguma me deu, só indicações para agir caso tivesse um AE e como detectar) e actualmente já estou de quase 12 semanas (faço amanha weeee :D) o saco entretanto desenvolveu (havendo um risco perto dos 90% de não desenvolver e o embrião acabar por morrer dentro do saco) o descolamento praticamente todo coladinho e continuo a trabalhar e com uma filha de 21 meses para tratar todos os dias que exige de mim este mundo e o outro fisicamente. Se fosse um animal não iria ficar em repouso, não iria parar a minha vida nem morrer à fome em prole duma gestação ainda mais tendo outra cria a depender muito de mim. Tal como não iria dar sobrevivência a uma cria com mal-formações e deficiências. É a minha maneira de ver as coisas e de as gerir Beijinho

Paragem da pilula:fevereiro Concepção:março
Dpp:19 de Dezembro 2015
Primeira gravidez e é uma princesa linda.
Nasceu: 2:21h do dia 11/12/15 com 2.720gr e 46cm

Retrato de smargarida.guedes
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Desde:
20.04.2013

Eu e o meu marido já falamos sobre este assunto e decidimos que se um dia engravidar e os resultados dos vários exames forem trissomia 21, abortava. É uma decisão muito pessoal de cada casal. Aceito as razões de quem não abortaria e aceito as razões de quem abortaria. É uma decisão de facto muito intima do casal.

SC

Retrato de Lili79
Offline
Desde:
12.12.2016

A única coisa que tenho para dizer a quem pensa controlar tudo com "eu não conseguia ocupar-me de alguém dependente" ou "não acho justo por ao mundo um ser dependente de tudo" e etc... metam-se na cabeça que na vida não controlamos nada! Podem fazer um aborto se detectarem trissomia 21 ou outra coisa mas lembrem-se sempre que há muitas doenças e deficiências não visíveis nas ecografias e que só se notam à nascença ou meses depois e pior ninguém está livre de ter um filho que num momento ou outro na vida possa ter uma doença ou um acidente que os deixe incapacitados para a vida toda. E o que é que farão? Terão de aceitar e criá-lo na mesma e ocupar-se dele na mesma não é assim?! Ninguém está livre e não vale a pena pensar demais nisso tudo, a vida é assim do nascer ao morrer pode acontecer-nos tanta coisa e não controlamos nada! Por isso a trissomia 21 ainda é o menos...

Retrato de Tyta.B
Offline
Desde:
31.07.2015

Com sinceridade eu optaria por não ter esse filho, não por ter qualquer tipo de preconceito com pessoas especiais, que não tenho e inclusive tive um menino com trissomia 21 no 5º ano e sempre que havia trabalhos de grupo os professores colocavam-me com ele porque sabiam que eu tinha bastante tolerância para a diferença e dificuldades que ele apresentava, mas porque não saberia lidar com a preocupação daquilo que aconteceria ao meu filho um dia que eu lhe faltasse. Porque eles não são autónomos, e não saber o que aconteceria àquele filho quando eu não estivesse mais cá, ou estivesse tão velha/doente que não lhe pudesse valer, não acho mesmo que soubesse lidar com essa constante preocupação.

Eu despertei para esta realidade quando há uns anos uma idosa se lavou em lágrimas aqui no escritório precisamente por este motivo. O filho, deficiente profundo e com tendências agressivas, estava cada vez mais difícil de lidar, e ela já tão debilitada não sabia o que lhe fazer. A dor daquela mãe, que não deve ter tido um único dia de paz na sua vida a partir do momento em que lhe nasceu um filho "diferente", e que nem na velhice tinha direito ao seu merecido descanso... e no fim o que a afligia não era ela mesma, era o que ia acontecer ao seu menino! Aquilo matou-me um pouco, e eu acho que não seria forte o suficiente para lidar com uma situação dessas.

Tenho muito respeito por quem lida com estas situações.

Retrato de NiGuigas
Offline
Desde:
05.03.2017

Sara.rs.90 escreveu:

Marina4 escreveu:eu respeito completamente que faz interrupção.
Mas eu não faria, porque há doenças 100 000 vezes piores...porque só a trissomia é que tem tanta atenção? Assisti e assisto a essas doenças na minha família daí saber do que estou a falar...há deficiências profundas, que nem imaginamos...
agora a trissomia depende, há uns fetos que tem grave malformações cardíacas e outras e nem teriam hipótese, agora se está tudo , e o único problema é a trissomia, parece eugenismo (mas é para mim, cada um faz o que quer)

E as doenças que normalmente estão sempre associadas a essa trissomia. Não estou muito dentro do assunto, mas segundo a pouca informação que tenho existem muitas complicações associadas e parece haver diferentes graus (se não é literalmente assim que me corrijam porque como já disse não estou mesmo dentro do assunto). No meu percurso escolar tive várias crianças com trissomia 21 nas minha turmas, tive uma menina que era a Inês que a única diferença entre ela e nós era a aparência pois era uma criança igual a nós (tirando o pormenor que estava na 4ª classe com 8/9 anos e ela já tinha 16). Todos eles mostravam graus de "profundidade" diferentes, tivemos um rapaz que era o João que ele era completamente enfiado no mundo dele, não falava, quando falávamos com ele às vezes revirava os olhos para conseguir olhar para nós, babava-se imenso e as aulas eram passadas com ele a brincar com canetas. De fora todos nós podemos dizer o que fariamos e o que deixariamos de fazer mas quando estamos dentro do assunto é que vemos como a coisa pesa. Eu não me vejo capaz de fazer uma IVG, é um assunto que me atromenta e deixa-me super triste pensar que teria que tomar uma decisão dessas (ainda mais por estar a passar por uma gravidez não planeada que de inicio abalou-me muito e foi-me colocada essa opção também por uma médica devido a um ferimento no colo do útero que me foi descoberto já na gravidez) mas acho que se me visse numa situação dessas eu não hesitaria por mais difícil que fosse. É uma tremenda responsabilidade. Será uma pessoa dependente sempre de alguém para o resto da vida. Pode parecer frio o que vou dizer mas acho que no mundo animal existe a selecção natural por algum motivo, selecção essa que deixou de haver na raça humana e não sei até que ponto é que isso é justo. Não sei.. É um assunto demasiado complexo e tão profundo que acho que nem que estivéssemos aqui a debater todos os pontos prós e contras não íamos deixar de concordar e concordar com tanta coisa que ia ser dita por todas as partes. É uma assunto bastante complicado. Mas tal como a escritora do tópico, acho que nesse ponto tenho uma mente retrograda e não iria ter coragem de me expor emocionalmente, expor a minha família e expor uma vida "incapaz" a tal situação só por uma situação de falta de animalismo e instinto de sobrevivência. Lamento se de alguma maneira posso chocar alguém com o que disse mas vejo as coisas assim desta maneira e vivo assim dessa maneira. Não tendo nada a ver mas da gravidez da minha filha não tive problemas alguns e de inicio até tinha um trabalho bastante pesado, desta gravidez não faço quase esforços nenhuns e tive um descolamento de placenta de 80% devido ao saco ser demasiado pequeno para o tamanho do embrião e quando a médica me disse no hospital que eu poderia fazer repouso mas que pelo tamanho do descolamento que às vezes há coisas que a natureza faz que sabe o que está a fazer. Optei por não fazer repouso pois segundo a médica o mais certo era acabar por não dar em nada (nem medicação alguma me deu, só indicações para agir caso tivesse um AE e como detectar) e actualmente já estou de quase 12 semanas (faço amanha weeee :D) o saco entretanto desenvolveu (havendo um risco perto dos 90% de não desenvolver e o embrião acabar por morrer dentro do saco) o descolamento praticamente todo coladinho e continuo a trabalhar e com uma filha de 21 meses para tratar todos os dias que exige de mim este mundo e o outro fisicamente. Se fosse um animal não iria ficar em repouso, não iria parar a minha vida nem morrer à fome em prole duma gestação ainda mais tendo outra cria a depender muito de mim. Tal como não iria dar sobrevivência a uma cria com mal-formações e deficiências. É a minha maneira de ver as coisas e de as gerir


Excelente reflexão...atrevo-me a dizer que subscrevo totalmente... Piscar o olho

Retrato de Soniafp
Offline
Desde:
19.03.2013

Vou ser muito sincera mamã.
não li os outros comentários , por isso n sei q opinião têm as outras mamãs, por isso não me julguem, ou se julgarem, paciência!
se me disserem q tinha um bebe com trissomia , dependendo do grau, mas muito provavelmente eu faria o aborto! nisso como faria tbm para outras doenças graves.
é certo q essas crianças são diferentes, não julgo.
mas é muito triste para os pais e propriamente para elas, elas são gosadas na escola , sofrem e com isso os pais tb sofrem, a família sofre, sao muitos cuidados, muitas idas ao medico para vigiar etc etc etc.
eu sempre disse : o aborto deveria ser proibido com excepção de doenças assim, problemas fetais, problemas para a vida da mãe ou do bebé! .
é simplesmente a minha opinião , nua e crua.

*TreinosJunho2013*Positivo chega depressa*
20Julho2014->diagnosticado útero pequeno/05Agosto2014->"soldadinhos"poucos e lentos/Janeiro2015->Ginecologia/Julho->Urologia/29Setembro->Ginecologia->encaminhamento p/tratamento ICSI->6meses de espera
O Sonho só acaba quando a Esperança Desaparece!

Retrato de moon_star
Offline
Desde:
10.07.2008

É um assunto delicado e cada um tem a sua opinião que merece ser respeitada numa situação destas. Aceito quem leva a gravidez para a frente e quem decide interromper. Tal como já falaram atrás, é possível o filho ser saudável e um dia ter uma doença ou acidente e ficar incapacitado para o resto da vida. Ok, é possível, mas penso que nesta situação resta apenas aceitar e fazer o possível para lhe dar uma vida com a melhor qualidade possível, são coisas que acontecem e que todos podemos passar por isso. Mas sabendo à partida que iria haver problemas (seja trissomia 21 ou equivalente) e mesmo assim "obrigar" a criança a nascer e viver com sofrimento? Penso que não seria capaz e optaria pela interrupção da gravidez. Talvez me chamem um pouco fria, mas de uma forma muito prática penso: "posso evitar sofrimento e problemas, evito. Não posso, aceito". Mas claro está, nunca passei por uma situação que tivesse que tomar uma decisão destas (e espero não vir a ter). Será que estando na situação de ter que tomar uma decisão, seria capaz? Não sei. Mais uma vez é um assunto delicado e uma decisão difícil de tomar.

Retrato de Ana Svensson
Offline
Desde:
23.04.2017

Eu não faria. A única possibilidade de um dia vir a fazer um aborto seria se o bebé tivesse algum problema que o impedisse de sobreviver depois de nascer. Trissomia 21 não é o fim do mundo. Há tantas outras doenças priores e mais incapacitantes. Acho sinceramente que quem usa o argumento de que a criança iria ser infeliz e sofrer a vida toda, o faz como forma de se convencer a si própria que não está a tomar uma decisão egoísta. A verdade é que ter um filho com trissomia 21 complica muito a nossa vida e naturalmente nenhuma de nós sonhou com isso. Mas para a criança não é uma sentença de uma vida infeliz. Podemos ter um bebé perfeitamente saudável que meses ou anos mais tarde fique gravemente doente ou incapacitado e não é por isso que a solução passa por matá-lo. Da mesma forma, uma pessoa dita normal pode ser muito mais infeliz do que uma pessoa com deficiência e pode também ser descriminada por tantos outros aspectos. Não podemos prever ,no momento em que estamos grávidas, como será a vida do nosso filho, independentemente de parecer ou não saudável na ecografia. E eu não me sintonia no direito de decidir que um filho não poderia viver porque afinal não é bem como eu imaginei.

Retrato de Sónia Maria Santos
Offline
Desde:
13.09.2012

Olá meninas...

Ora aqui está um tema excelente para nos conduzir numa refleção ponderada e cuidadosa.

A maioria de voz pensa nesta questão enquanto mães que, confrontadas com uma verdade cruel, teriam que se ver forçadas a tomar uma decisão terrível: seguir ou não com uma gravidez da qual resultaria o nascimento de um filho "diferente". Pois bem, eu falo-vos da perspetiva desse filho diferente. Sim, sou diferente. Nasci com um glaucoma bilateral congénito que me rouba totalmente o sentido da visão.

Na altura, e já lá vão 45 anos, nada se sabia durante a gestação de um filho; nada ou quase nada mesmo era revelado. O sexo do bebé era um dos mais bem guardados segredos do mundo e o tempo de gestação ainda era contabilizado em ciclos lunares. Os meus pais já tinham 3 filhos mais velhos completamente saudáveis e depois caiu-lhes o Mundo em cima quando nasci eu, gordinha e perfeita, mas com uma patologia que, imaginem, nem os médicos sabiam se eu iria ou não ser capaz de ver.

Os meus pais eram pobres mas bem-formados. Criaram-me como criaram os meus irmãos. Tive acesso ao que existia na altura. Fui operada para travar a evolução do glaucoma apenas para melhorar o meu bem-estar. Inicialmente tinha um resíduo visual que entretanto se perdeu; as idas aos médicos, as cirurgias, o controlo apertado da tenção ocular era constante.

Claro que ninguém me descartou, ninguém me maltratou e ninguém deixou que me faltasse fosse o que fosse; no entanto, para os meus pais, a grande preocupação deles era saber se eu seria capaz de tomar conta de mim. Fizeram de tudo para que isso fosse uma garantia, um legado que me deixavam. Conseguiram. Mas porquê? Porque, por sorte, eu nasci apenas cega. A cegueira não me rouba a individualidade, a autonomia, a capacidade de pensar e agir por mim mesma; também não me impede de trabalhar, de exercer os meus direitos de cidadã, de gostar e não gostar de pessoas, coisas e instituições. Fiz e continuo a fazer o meu percurso, arcando com as consequências, boas e más, das minhas decisões.

Mas sabem, as patologias neurológicas e/ou comportamentais não são assim tão simples como a cegueira. Os T21 não são autónomos; os doentes mentais profundos não são autónomos, e muitos outros bebés a quem lhe foi dado o direito de nascer, jamais serão autónomos. A maioria dos pais dessas crianças não possuem condições básicas para conseguirem dar a esses filhos nem um décimo do que eles precisam em termos de terapias, tratamentos, medicamentos, utensílios de apoio à mobilidade ou falta dela. A maioria dos pais precisa de trabalhar para garantir o sustento. Como fará depois para sobreviver financeiramente? quem cuida desses filhos "diferentes"? O estado? Pois sim, quem acreditar nisso é porque ainda acredita no Pai-Natal. O estado faz pouco e nem importa muito discutir sobre isso neste tópico. Importa chamar as coisas pelos nomes. O estado não se substitui às famílias; estas, quando realmente se veem numa situação deste tipo, rezam para encontrar uma instituição onde colocar aquele filho "diferente". Essas instituições - excelentes que são - existem em pouca quantidade e estão, obviamente, superlotadas. Por outro lado, as famílias precisam continuar a trabalhar para garantirem o sustento de si mesmos e até de outros filhos que tenham.

Lembro-me perfeitamente de ouvir conversas da minha mãe e até do meu pai sobre a preocupação constante com o meu futuro. Jamais queriam que eu fosse para uma instituição para que alguém cuidasse de mim. Claro que a informação que eles tinham disponível sobre as limitações de um cego era nula ou quase. O tempo foi passando, eu fui prosseguindo os estudos e a dada altura eles perceberam que afinal tudo estava no bom caminho.

Eu já não tenho os meus pais. Felizmente tenho a minha própria família: marido e 2 filhos, mais as minhas irmãs e sobrinhos e um montão de amigos. Sempre trabalhei e tenho uma excelente relação profissional com os vários colegas. Mas... e agora vou especular... e se eu tivesse nascido com outra diferença qualquer mais limitadora e que não me permitisse ser dona da minha própria vida? Se eu não tivesse meio de sustento? E se eu não fosse capaz de tomar banho, de me alimentar, em fim, de ser capaz de cuidar sequer das minhas necessidades básicas? Parece-vos justo que eu constituísse um encargo para as minhas irmãs, também elas com vidas próprias e sem condições de deixar de trabalhar para me cuidarem?

Como já referi, os meus pais já partiram e até bastante cedo. O meu pai partiu quando eu tinha 23 anos e 3 semanas de casada. Parece que esperou levar-me ao altar para poder partir descansado... A minha mãe partiu em 2007. Se eu não fosse cega e fosse outra coisa qualquer, acho que preferiria mil vezes que os meus pais não me deixassem nascer do que viver apenas sobrevivendo, limitada ao respirar e ao nascer e por do Sol Diários. Para passar os dias numa instituição qualquer do Estado, sim, assumo, preferia não existir. É que não sei se sabem, mas deve ser mau demais viver sem viver.

É efetivamente verdade que não controlamos tudo mas, se de alguma forma Deus tem dado aos homens da ciência o conhecimento e meios necessários para nos dar algum controlo sobre o que nos rodeia, é porque se calhar pretende mesmo que tenhamos um papel mais ativo em tudo o que nos pode afetar.

Claro que quando a "diferença" surge sem se fazer anunciar, sem aviso ou alerta de espécie nenhuma, em resultado de acidente ou de doença, não temos outro remédio se não enfrentar a dura realidade; Agora, quando se está informada e na posse da decisão... cabe a cada um fazer o melhor que conseguir. às vezes, decidir pelo mais difícil é mesmo decidir pelo melhor.

Respeito muito qualquer mulher que, assumidamente, afirme que não seria capaz de realizar uma IMG, mas tudo na vida tem consequências. E deixar vir ao Mundo um filho "diferente" tem consequências para os pais e restante família, mas no essencial, o que importa avaliar são as consequências para esse mesmo filho. que vida lhe estamos a oferecer? Será que ele merece chegar aqui para sofrer tanto? É que alguns sofrem mesmo, a começar por procedimentos médicos terríveis.

Quando engravidei, decidi logo que faria a amniocentese na altura adequada. Não fiz rastreio nem nada do tipo porque queria certezas, pelo menos as certezas possíveis. Deus - sim, eu acredito em Deus - deu-me 2 filhos lindos e perfeitamente saudáveis. Se um dia algo de mau, de muito mau lhes acontecer, eu, pelo menos enquanto cá estiver, farei de tudo por eles; o que não carrego é a culpa de os ter cá feito chegar dependentes por falta de coragem de tomar uma decisão difícil.

E depois há outra coisa... isto de se ser "diferente" tem um grande peso na nossa existência; acreditem que tem. Eu, que já passei aquela fase tramada da adolescência em que queremos mudar o mundo e exigimos todo o tipo de respostas, continuo a lutar contra os estigmas instituídos. Ainda é preciso ser-se melhor do que os outros para conseguir o mesmo. Acho que será sempre assim. Estamos melhores porque agora já me perguntam coisas em vez de tirar conclusões descabidas e a despropósito, mas ainda acontece referirem-se a mim sem me falarem diretamente; ainda se dirigem a quem estiver comigo em vez de se dirigirem a mim diretamente, ainda que o assunto até me diga totalmente respeito. Em fim, são as consequências das minorias. Se é fácil? Não, de todo que não e há dias mesmo complicados. Se para mim tem sido um drama? Não considero que tenha sido, mas conheço outros casos em que, realmente, foi, é e continua a ser um drama.

Querida tita.b, adoro a forma como escreve e subscrevo tudo…

Sara.rs.90? Há tanto tempo que não falamos! Aparece lá novamente!

Desculpem o testamento

Beijinhos a todas

me Ainda me perguntam

SMSantos

Retrato de Angie_AM
Offline
Desde:
19.06.2017

Ana Svensson escreveu:
Eu não faria. A única possibilidade de um dia vir a fazer um aborto seria se o bebé tivesse algum problema que o impedisse de sobreviver depois de nascer. Trissomia 21 não é o fim do mundo. Há tantas outras doenças priores e mais incapacitantes. Acho sinceramente que quem usa o argumento de que a criança iria ser infeliz e sofrer a vida toda, o faz como forma de se convencer a si própria que não está a tomar uma decisão egoísta. A verdade é que ter um filho com trissomia 21 complica muito a nossa vida e naturalmente nenhuma de nós sonhou com isso. Mas para a criança não é uma sentença de uma vida infeliz. Podemos ter um bebé perfeitamente saudável que meses ou anos mais tarde fique gravemente doente ou incapacitado e não é por isso que a solução passa por matá-lo. Da mesma forma, uma pessoa dita normal pode ser muito mais infeliz do que uma pessoa com deficiência e pode também ser descriminada por tantos outros aspectos. Não podemos prever ,no momento em que estamos grávidas, como será a vida do nosso filho, independentemente de parecer ou não saudável na ecografia. E eu não me sintonia no direito de decidir que um filho não poderia viver porque afinal não é bem como eu imaginei.

Concordo a 100% contigo mas ainda acrescento que se as crianças assim, ditas "diferentes" são gozadas nas escolas, criticadas e olhadas de lado nas ruas é por causa das mentes "fechadas" e preconceituosas que existem por aí...lá está se eu for preconceituosa e os meus filhos forem habituados a tal também vão fazer o mesmo...
E mais tive um irmão deficiente profundo, foi o primeiro filho dos meus pais, a minha mãe teve uma santa gravidez, estava tudo normal e cheio de saúde e sabem o que aconteceu? no momento do parto o meu irmão não respirou no tempo devido, não recebeu oxigénio necessário e ficou assim, no momento do parto. Iam por o filho no lixo nessa altura?
Uma coisa é ser alguma doença incompatível com a vida, mas e se o bebé fosse 100% saudável mas não tivesse uma mão? também abortavam?

Angie*

Retrato de Tyta.B
Offline
Desde:
31.07.2015

Angie AM, essa é uma pergunta descabida. Nascer sem uma mão, não é incompatível com uma vida funcional e independente. Nascer com uma deficiência mental é. A situação do seu irmão é equivalente a alguém ter um acidente de carro e ficar com graves sequelas. Não se pode prever, tem de se lidar caso aconteça. Mas saber que o bebé que vamos ter vai nascer com problemas que o tornarão dependente para toda a vida, e mesmo assim aceitar tê-lo... cobarde me confesso, eu não teria coragem.

O meu filho sofreu de bullying há uns anos, e foi de longe a pior altura da minha vida. Não poder fazer nada - infelizmente não posso ser eu a entrar pela escola dentro e dar educação aos filhos dos outros - fez-me sentir menos que nada. Foi a única altura em que senti que falhei como mãe porque não podia ajuda-lo por mim mesma, e ter um filho com graves deficiências seria ter este sentimento o resto da vida, vê-lo a sofrer, vê-lo dependente, não poder resolver a situação de forma activa... eu não conseguia, não tenho estofo.

Retrato de Videl86
Offline
Desde:
18.07.2014

Ana Svensson escreveu:
Eu não faria. A única possibilidade de um dia vir a fazer um aborto seria se o bebé tivesse algum problema que o impedisse de sobreviver depois de nascer. Trissomia 21 não é o fim do mundo. Há tantas outras doenças priores e mais incapacitantes. Acho sinceramente que quem usa o argumento de que a criança iria ser infeliz e sofrer a vida toda, o faz como forma de se convencer a si própria que não está a tomar uma decisão egoísta. A verdade é que ter um filho com trissomia 21 complica muito a nossa vida e naturalmente nenhuma de nós sonhou com isso. Mas para a criança não é uma sentença de uma vida infeliz. Podemos ter um bebé perfeitamente saudável que meses ou anos mais tarde fique gravemente doente ou incapacitado e não é por isso que a solução passa por matá-lo. Da mesma forma, uma pessoa dita normal pode ser muito mais infeliz do que uma pessoa com deficiência e pode também ser descriminada por tantos outros aspectos. Não podemos prever ,no momento em que estamos grávidas, como será a vida do nosso filho, independentemente de parecer ou não saudável na ecografia. E eu não me sintonia no direito de decidir que um filho não poderia viver porque afinal não é bem como eu imaginei.

Acho que pela primeira vez concordo a 100% com a Ana Svensson! lol é isso mesmo que penso.

08 de dezembro de 2014 <3
49,5 cm e 2,920 de amor e doçura <3

Retrato de Ana Svensson
Offline
Desde:
23.04.2017

Videl86 escreveu:

Ana Svensson escreveu:Eu não faria. A única possibilidade de um dia vir a fazer um aborto seria se o bebé tivesse algum problema que o impedisse de sobreviver depois de nascer. Trissomia 21 não é o fim do mundo. Há tantas outras doenças priores e mais incapacitantes. Acho sinceramente que quem usa o argumento de que a criança iria ser infeliz e sofrer a vida toda, o faz como forma de se convencer a si própria que não está a tomar uma decisão egoísta. A verdade é que ter um filho com trissomia 21 complica muito a nossa vida e naturalmente nenhuma de nós sonhou com isso. Mas para a criança não é uma sentença de uma vida infeliz. Podemos ter um bebé perfeitamente saudável que meses ou anos mais tarde fique gravemente doente ou incapacitado e não é por isso que a solução passa por matá-lo. Da mesma forma, uma pessoa dita normal pode ser muito mais infeliz do que uma pessoa com deficiência e pode também ser descriminada por tantos outros aspectos. Não podemos prever ,no momento em que estamos grávidas, como será a vida do nosso filho, independentemente de parecer ou não saudável na ecografia. E eu não me sintonia no direito de decidir que um filho não poderia viver porque afinal não é bem como eu imaginei.

Acho que pela primeira vez concordo a 100% com a Ana Svensson! lol é isso mesmo que penso.

Alguma vez teríamos de concordar Piscar o olho

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19.11.2012

Boa noite meninas obrigada desde já pelas vossas respostas Sônia Maria santos por incrível que possa parecer parece que foi a única que entendeu o tópico. A ideia era mesmo as meninas porem se no lugar de uma criança com problemas e não discutir se são a favor ou contra o aborto. Já agora eu falei de trissomia21 mas podia ter falado de outra qualquer doença incapacitante simplesmente foi a que me ocorreu na altura talvez por ser a que mais ouço falar.Tinha já visto outros tópicos para o assunto mas era sempre a falar nos pais e na dificuldade de criar uma criança diferente,por isso quis em parte que vocês se colocassem no lugar da criança e pensassem como tal. Tenho um filho con 15 anos saudável claro que se lhe acontece se alguma coisa íamos seguir em frente e proporcionar lhe o melhor que estivesse ao nosso alcance isso nem se questiona. Agora quando isso esta dependente de uma decisão nossa...

2001 nasceu o meu Leandro
Treinante 2º viagem desde 09/2014

Retrato de Danb
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11.11.2015

Falo por mim, pela minha experiência (já vivi enquanto miúda em 3 países diferentes) e daquilo que já vi a acontecer..

Se eu soubesse (na gravidez) que um filho meu ia ter uma doença incapacitante que o tornasse dependente não seria capaz de avançar..
Se há coisa que eu sei é que as crianças são cruéis umas com as outras.. eu própria sofri de bullying e sabem porquê? porque eu tinha as melhores notas da turma (isto com 10 anos +/-) e marcou-me.. sou hoje em dia uma pessoa extremamente explosiva e não dou uma única "abébia" (e por vezes sou demasiado rígida com as pessoas à minha volta).. mas durante um ano inteiro estar constantemente a ser gozada, humilhada e ameaçada marcou-me! Só acabou porque, por uma sorte enorme, um dia uma rapariga que era das ditas "fixes" começou a falar comigo e desde então é das minhas melhores amigas.. foi só por ela ter feito amizade comigo que aquele meu sofrimento acabou.. agora imagino se fosse por eu ser diferente, ou ser completamente dependente como seria.. eu já vi, aqui em Portugal, os gozos com uma rapariga na escola que tinha qualquer problema mental (não era trissomia 21).. era constantemente.. vi-a a ser gozada e humilhada perante centenas de alunos todos os dias!! vi-a a ser agredida simplesmente por ser diferente.. vi que ela nunca falava disso a ninguém porque ela não conseguia exprimir-se como uma adolescente "normal".. vi jovens completamente dependentes a 100% em cadeiras de rodas e tudo.. eram deixados na escola por uma carrinha especial.. e penso nisto tudo e penso quererei eu isto para um filho meu?? não! nunca!!
e penso, e se algo acontece aos pais daquele jovem que nem comer sozinho era capaz?? o que é feito dele? quem vai cuidar dele? quem lhe vai amar?? e não, não prosseguia com uma gravidez se me dissessem que o meu filho iria ter uma doença assim.. não por não amar, mas precisamente por amar que não era capaz.. nunca conseguiria viver e aceitar que alguém gozasse com ele ou lhe fizesse mal.. pensaria sempre, quem vai cuidar dele com o mesmo amor e carinho se me acontecer qualquer coisa??

eu não tenho preconceito nenhum com pessoas com limitações ou doenças.. apenas acho que a sociedade é demasiado cruel para essas pessoas.. Sei que provavelmente são as pessoas mais amorosas que possam existir pq vêem o mundo de outra forma e é tudo mais simples para eles.. mas a sociedade acabará sempre por os magoar, e, enquanto mãe, nunca conseguiria aceitar isso..

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12.12.2016

Pois mas como é evidente é impossível por-se no lugar da criança diferente porque ao contrário do que muitos pensam, a maior parte das crianças diferentes são felizes, lutadoras, guerreiras, não vêm as coisas como os "normais" simplesmente porque nasceram diferentes, com limitações que fazem com que tenham de aprender a viver à maneira deles e amenos que tenham muito sofrimento físico são muito mais felizes que qualquer outra criança porque não pensam em pedir brinquedos ou tablets aos pais, só querem mimos, beijinhos, colo e nunca perdem a inocência e a bondade, ao contrário de todos os "normais"....

Retrato de SU NEVES
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19.11.2012

Lili79 nao confunda alhos com bugalhos isso de pedir tablets ou outras coisas nada tem a ver. Pois conheço miúdos com deficiência e eles sabem melhor do que o meu filho qual o telemovel XPTO da moda e sabem bem o que querem. Mas concerteza os deficientes mais graves sejam aquela outra parte que nao referiu e nao sejam assim tão felizes nem bem sucedidos.

2001 nasceu o meu Leandro
Treinante 2º viagem desde 09/2014

Retrato de Butterfly_901
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06.04.2013

Bem, não posso deixar de dar a minha opinião, uma vez que eu cresci com um irmão diferente...

Temos 3 anos de diferença, e embora eu não o quisesse quando ele nasceu (pedia à minha mãe para o deitar para o lixo lol), à medida que fomos crescendo, fomo-nos aproximando muito e como tal ele era tudo para mim. O meu irmão era aparentemente "normal": era lindo qd nasceu - loirinho e de olhos cinzentos; gatinhou e andou na altura devida, brincava comigo, nunca ficava doente, mas não falava. Com um ano, com dois anos, com três anos as palavras não saíam. À medida que ía ficando mais velhinho, gritava e fugia quando não o entendíamos, quando alguém gozava com ele e ele percebia mas não conseguia defender-se gritava e chorava de raiva.
Foram anos de médicos, exames, terapias. Andou uns meses numa escola para meninos com deficiência, porque os médicos diziam que ele era surdo-mudo. Aprendemos inclusive a linguagem gestual...

Houve um episódio que me marcou imenso até hoje: os meus pais tinham uma reunião com a professora dele e deixaram-me no recreio com os outros miúdos. Pois bem, assim que os rapazes me viram, rodearam-me e todos me tocaram, mexeram, puxaram os cabelos. Foi horrível, chorei e gritei até que alguém me viu e me tirou dali. Para eles eu era tão bonita que me queriam fazer festinhas. Foi o que me explicaram. (não sou nada de especial - o meu irmão é mil vezes mais bonito do que eu, eu sou apenal "normal" com todas as minhas anormalidades e isso para aquelas crianças e adolescentes tinha peso.) \/:) \/:)

Pois bem, ao fim de uns meses nessa escola, chegou-se a conclusão que o meu irmão estava a regredir e os meus pais retiraram-no de lá. Os médicos também chegaram à conclusão que ele ouvia muito bem.
Enfim.. Muito devagar o meu irmão começou a falar: os sons foram saindo, e por fim as palavras também chegaram. Houve uma altura em que o meu irmão mostrou a nível mental um ligeiro atraso (do género com 7 anos, estava a nível mental de uma criança de 4 anos).
Houve muita terapia da fala (ainda hoje tem), médicos de diferentes especialidades, muitos exames. A minha mãe durante muito tempo não trabalhou para o poder acompanhar.
Hoje ele tem o 12º ano, tem um emprego estável e comprou agora uma casa. Fala de politica como ninguém... Ou de futebol... No entanto, é o miúdo mais calado que conheço, é triste, anda em psicólogos e toma ansiolíticos. Ainda hoje parece um estrangeiro que aprendeu a língua à pouco tempo. Ninguém o entende à primeira e tem sempre que repetir o que diz. Sofreu e sei que sofre muito. E o único problema dele, foi não falar...

Imaginem agora a vida de uma criança que não consegue comer sozinha, vestir-se sozinha. Que pode ser violada e nem diz nada pois acha normal. Infelizmente, os pais não são eternos... Como ficam estas crianças, quando os pais morrerem?? Aonde?? Quem lhes faz a comida? Quem lhes dá banho? Quem os veste?? É tudo muito bonito, mas importa aqui perceber uma coisa: se interrompermos uma gravidez ficamos a chorar por um filho amado que não nasceu mas também não sofreu. E se a criança nascer? Quem chorará mais? Nós ou ela??

_____________________________
Resta-me ainda dizer que durante toda a gravidez do meu filho rezei para que ele nascesse saudável e perfeito. Era o meu mantra... E imaginem??!! O Leo tem 26M e ainda não fala! Já começamos as nossas terapias. Eu sei que aos poucos vamos lá. Mas custa-me pensar o que ele poderá sofrer no futuro. E se gozarem com ele? E se lhe tirarem algo com que ele está a brincar na cresce? Ele não consegue dizer algo tão simples: como "dá-me isso" ou pedir ajuda à educadora. Se alguém lhe bater eu não saberei. Sabem o que isso faz à minha cabeça?? Ou ao meu coração?? O sonho de qualquer pai ou mãe é verem o filho criar asas, tornar-se autónomo. Viver a vida que escolher de forma independente! E claro, ser feliz!!! É o que eu desejo para todas as crianças... E para o meu Leo...
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É um tema difícil e controverso.. Desejei apenas mostrar o outro lado.

Mamã Sónia, adoro lê-la mas adorei ainda mais ler o que escreveu agora... Você inspira-me.
Apaixonado :X Apaixonado

Dois abortos retidos em Abril e Novembro de 2013.
Positivo a 04/11/2014-É desta!!!! À terceira é de vez!!!!!

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18.07.2014

Custa a qualquer mãe pensar que o filho pode ser alvo de discriminações e humilhações, mas na verdade nós não o podemos evitar. Eu faria um aborto se fosse detetada uma doença incompatível com a vida ou uma doença que, mesmo sendo inicialmente compatível, tivesse um prognóstico tão mau que eu soubesse que o meu filho(a) ia viver poucos anos e sempre em sofrimento físico, sempre dentro de hospitais/cirurgias. Que não é o caso de T21, quando não há outros problemas associados pelo menos (por vezes existem, especialmente cardíacos, mas é feito um estudo e uma pessoa consegue ter uma ideia até que ponto a saúde física será afetada). E aquelas doenças mesmo horríveis e incapacitantes geralmente não são detetadas no pré-natal, muitas vezes só se desenvolvem fora da barriga (daí eu ter tanto medo de beijos em recém-nascidos ou bebés, etc).
Agora tenho a certeza que uma criança/pessoa com limitações que foi muito gozada na escola, embora tenha marcas disso, não pensa que preferia não ter vivido do que ter vivido com esses traumas! Uma criança amada, apreciada e protegida pela sua família, não pensa que preferia nunca ter nascido do que ter nascido e sofrer humilhações na escola! E bullying todos podem sofrer, uns por umas coisas, outros por outras. É nosso papel de mães e pais ensinarmos os nossos filhos a não se deixarem afetar por bullying, estarmos atentas, fazermos o que estiver ao nosso alcance. Acima de tudo, sabermos o que se passa na vida dos nossos filhos por estarmos atentas, e não porque esperamos que eles nos venham contar porque muitas vezes não o fazem.
Quando eu estava grávida do meu filho não consegui fazer rastreio do 1º trimestre. Ele não colaborou, não permitiu fazer o exame, mesmo depois de horas a tentar. Na altura eu ainda vivia em Inglaterra e eles lá tentam aquele dia e não insistem mais. Disseram-me para voltar às 15 semanas para fazer um exame de sangue e obter uma probabilidade para T21. Mas o rastreio bioquímico teria sido mais fiável, mesmo que sendo probabilístico. Eu pensei muito na altura. Eu sabia que não ia abortar se tivesse T21...e sabia que não ia abortar a não ser num caso muito extrema. Nessa altura eu já estava de viagem marcada para Portugal, para regressar, e o que pensei foi "Vai correr tudo bem, ele vai ser saudável. Se não for, nós conseguimos dar conta da situação. Se a situação for muito grave, nós voltamos para Inglaterra ou vamos para um país onde eu possa garantir tudo do melhor ao meu filho, como acesso a ensino inclusivo de qualidade. Se for preciso, nós arranjamos uma forma de eu parar de trabalhar e passar a ser responsável pela educação dele. O meu filho vai ser amado, desejado e feliz e vai saber isso sempre, e vai ser tão amado e tão feliz que nenhuma situação má o vai afetar ao ponto dele querer não estar vivo.". Este foi o plano que fiz na minha cabeça. O meu filho nasceu saudável e até hoje é um menino muito ativo, saudável e, acima de tudo, feliz. Ele tem um atraso a nível do desenvolvimento da linguagem e é acompanhado devidamente, e eu como mãe já tive momentos de pânico interior em que pensava que não queria que o meu filho sofresse, que daqui a pouco outros meninos da idade dele vão perceber que ele não se comunica da mesma forma ou com a mesma fluidez, etc etc e senti e sinto, por vezes, medo daquilo que ele possa passar. Mas ele tem e vai ter sempre uma família que acredita nele e acha que ele é capaz de tudo, que o vai apoiar sempre e que está disposta a fazer qualquer sacrifício pela felicidade dele. E ele vai crescer a saber isso e portanto eu sei que ele vai ser sempre, maioritariamente, feliz. Eu respeito a liberdade de escolha e respeito que as pessoas escolham algo diferente daquilo que eu escolheria. Mas acredito naquilo que estou a dizer, essa é a minha posição pessoal relativamente a este assunto.

Ah, e um aparte...eu nunca me integrei muito, socialmente, em criança e adolescente. Sempre fui diferente, não sei porquê, sempre pensei de forma diferente das minhas colegas, sempre tive preocupações diferentes, sempre reclamei mais, sempre discordei mais, sempre fui mais vocal em relação ao que não concordava. E lembro-me que houve uns anos em que fui alvo de chacota, principalmente para os meninos da turma. Entre o meu 7º e 8º ano. Eu sofria muito e eles sabiam e gostavam disso e faziam mais por eu sofrer e eles conseguirem ver que me afetavam a esse ponto. Para mim, naquela altura, aquilo era o fim do mundo. Aqueles anos poderiam ter determinado o percurso da minha vida. Os meus pais não me ajudaram, eu chorava e explicava-lhes o que acontecia e eles na verdade ficavam irritados por eu me deixar afetar e ainda me diziam coisas como "ah se fosses minha colega eu também gozava contigo porque tu ligas, se não ligasses eles não gozavam contigo". Eu acho que tive sorte porque depois conheci as pessoas certas que me ajudaram e eu consegui erguer-me e ver mais do que aquilo que acontecia. E um dia (eu era muito bem comportada e nunca me metia em sarilhos nas aulas) eu explodi de raiva, depois de uns meninos me terem mandado umas bocas (já nem me lembro que tipo de bocas) no meio de uma aula, sempre pela calada sem o professor ver. Eu levantei-me e virei-me para trás, enfiei a mesa deles contra eles e encurralei-os na parede, o professor a pedir-me para eu parar e eu ignorei-o. E baixinho, enquanto todos os outros se riam da situação, eu disse a esses dois meninos "é a última vez que vocês me mandam uma boca, é a última vez que falam comigo dessa forma, porque da próxima vez eu não vou parar e rebento a mesa em cima de vocês.". Depois parei de empurrar a mesa, pedi desculpa ao professor e saí a meio da aula. Eles nunca mais me mandaram nenhuma boca, nunca mais. E nunca mais nenhum dos outros se atreveu a mandar boca nenhuma. Isto já eu andava no 9º ano. A minha vida tornou-se muito mais fácil, eu fiquei mais confiante e depois comecei a ver-me como eu realmente era e passei a aceitar-me. E embora até hoje seja relativamente sensível ao que os outros me dizem, confio em mim e no meu potencial e sei quem sou, e isso permite-me gostar de mim e saber que dou o meu melhor. E por isso não lamento nada e consigo pôr as coisas más para trás. Aquele dia mudou a minha vida e eu só tive coragem de fazer aquilo porque naquele ano tinha conhecido uma pessoa nova que tinha entrado na minha turma que tinha visto o que acontecia e me tinha dado várias dicas de como agir numa próxima situação. E foi a pessoa certa, no momento certo. Como disse, eu tive sorte em conhecer quem conheci, mas na verdade poderia ter funcionado da mesma forma se a minha família não tivesse desvalorizado e me tivesse aconselhado, tivesse mostrado preocupação com o meu bem-estar, etc. Ou seja, há sempre uma parte que nos cabe a nós, mães e pais, e essa parte é determinante e pode significar tudo.

08 de dezembro de 2014 <3
49,5 cm e 2,920 de amor e doçura <3

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18.07.2016

Acho que é difícil pormo-nos no lugar dessas crianças porque provavelmente quem tem menor capacidade cognitiva provavelmente não repararia ou sentiria afetado pelas mesmas coisas que nós. Provsvelmente por isso até podem ser felizes desde que tenham quem cuidar deles e estejam protegidos da crueldade de outras crianças e do mundo.

Quanto ao aborto. Podem dizer que há doenças bem piores e que uma pessoa pode acabar por apanhar na mesma, mas isso é como dizer que podemos morrer amanhã com um piano por cima de nós por isso não precisamos de evitar perigos de forma consciente como passar a estrada sem vermos os dois lados. Quando temos capacidade de detetar algo antes do tempo e temos escolha é diferente de quando somos apresentados a uma situação surpresa.

Podem achar egoismo ou dizerem aos outros para "meterem na cabeça de uma vez por todas". Mas o que um acha egoismo pode não ser igual ao outro. Há quem ache egoismo trazer uma criança com deficiência. Toda a gente pode ter a sua opinião subjetiva no que é que é mesmo egoismo, no entanto não é preciso julgar.

Eu sinceramente não sei o que faria, por ser uma decisão difícil. Por isso mesmo que acho que julgamentos neste tema é excusado.
Mas acho que é preciso termos a cabeça na terra quando tomamos esse tipo de decisão pois nos casos que não conseguem ser independentes o que fazem os pais? Eles não estariam cá para sempre e muitos nem têm capacidade financeira para poder um deles ficar em casa a tomar conta da criança. E depois teriam força mental para aguentar o resto da vida deles condicionados completamente pela dependência do filho? Vejo nos filmes onde uma mulher tem que tomar conta de um marido com deficiência grave e o quanto lhes custa, claro que quando se tem marido, mulher ou filhos temos que estar preparados para isso mas quando a realidade aparece não seria fácil e se podessem evitar talvez alguns evitariam. Mas mais uma vez essa decisão seria difícil, pelo que tem que ser tomada por cada casal e não deveria ser julgada. Quem tem que a tomar já sofre o suficiente.

Retrato de Butterfly_901
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06.04.2013

Olá mamã Videl.

Agradeço desde já o seu testemunho. Eu tenho acompanhado outros tópicos seus e portanto, já sabia que o seu menino também tem um problema na fala. O seu menino anda na escola? O meu anda na escolinha com meninos mais velhos (ele é o mais novo da escola dele) e o que eu noto é que ele está a ficar muito agressivo. Mas o meu irmão também o era.
_______________________
Todas nós queremos o melhor para os nossos filhos. Isso não está aqui em discussão sequer. E claro, que lhes daremos na medida das nossas possibilidades. Mas e quando morrermos?? Quem lhes dará o melhor?? O problema reside aí.. Conhecendo-me como me conheço sei que viveria a vida toda com o coração nas mãos só de pensar nisso. O que aconteceria a um filho meu deficiente quando eu e o pai partíssemos?? ía para uma instituição?? Ficaria com algum familiar?? Tratariam-no bem? Condignamente?

Enfim... São muitas questões a ponderar.

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Eu também fui vitima de bullyng e sou disléxica. Também andei anos em terapia. Chumbei na 2º classe. E hoje?? Conto histórias a crianças... A vida dá muita volta.

Videl86 escreveu:
Custa a qualquer mãe pensar que o filho pode ser alvo de discriminações e humilhações, mas na verdade nós não o podemos evitar. Eu faria um aborto se fosse detetada uma doença incompatível com a vida ou uma doença que, mesmo sendo inicialmente compatível, tivesse um prognóstico tão mau que eu soubesse que o meu filho(a) ia viver poucos anos e sempre em sofrimento físico, sempre dentro de hospitais/cirurgias. Que não é o caso de T21, quando não há outros problemas associados pelo menos (por vezes existem, especialmente cardíacos, mas é feito um estudo e uma pessoa consegue ter uma ideia até que ponto a saúde física será afetada). E aquelas doenças mesmo horríveis e incapacitantes geralmente não são detetadas no pré-natal, muitas vezes só se desenvolvem fora da barriga (daí eu ter tanto medo de beijos em recém-nascidos ou bebés, etc).
Agora tenho a certeza que uma criança/pessoa com limitações que foi muito gozada na escola, embora tenha marcas disso, não pensa que preferia não ter vivido do que ter vivido com esses traumas! Uma criança amada, apreciada e protegida pela sua família, não pensa que preferia nunca ter nascido do que ter nascido e sofrer humilhações na escola! E bullying todos podem sofrer, uns por umas coisas, outros por outras. É nosso papel de mães e pais ensinarmos os nossos filhos a não se deixarem afetar por bullying, estarmos atentas, fazermos o que estiver ao nosso alcance. Acima de tudo, sabermos o que se passa na vida dos nossos filhos por estarmos atentas, e não porque esperamos que eles nos venham contar porque muitas vezes não o fazem.
Quando eu estava grávida do meu filho não consegui fazer rastreio do 1º trimestre. Ele não colaborou, não permitiu fazer o exame, mesmo depois de horas a tentar. Na altura eu ainda vivia em Inglaterra e eles lá tentam aquele dia e não insistem mais. Disseram-me para voltar às 15 semanas para fazer um exame de sangue e obter uma probabilidade para T21. Mas o rastreio bioquímico teria sido mais fiável, mesmo que sendo probabilístico. Eu pensei muito na altura. Eu sabia que não ia abortar se tivesse T21...e sabia que não ia abortar a não ser num caso muito extrema. Nessa altura eu já estava de viagem marcada para Portugal, para regressar, e o que pensei foi "Vai correr tudo bem, ele vai ser saudável. Se não for, nós conseguimos dar conta da situação. Se a situação for muito grave, nós voltamos para Inglaterra ou vamos para um país onde eu possa garantir tudo do melhor ao meu filho, como acesso a ensino inclusivo de qualidade. Se for preciso, nós arranjamos uma forma de eu parar de trabalhar e passar a ser responsável pela educação dele. O meu filho vai ser amado, desejado e feliz e vai saber isso sempre, e vai ser tão amado e tão feliz que nenhuma situação má o vai afetar ao ponto dele querer não estar vivo.". Este foi o plano que fiz na minha cabeça. O meu filho nasceu saudável e até hoje é um menino muito ativo, saudável e, acima de tudo, feliz. Ele tem um atraso a nível do desenvolvimento da linguagem e é acompanhado devidamente, e eu como mãe já tive momentos de pânico interior em que pensava que não queria que o meu filho sofresse, que daqui a pouco outros meninos da idade dele vão perceber que ele não se comunica da mesma forma ou com a mesma fluidez, etc etc e senti e sinto, por vezes, medo daquilo que ele possa passar. Mas ele tem e vai ter sempre uma família que acredita nele e acha que ele é capaz de tudo, que o vai apoiar sempre e que está disposta a fazer qualquer sacrifício pela felicidade dele. E ele vai crescer a saber isso e portanto eu sei que ele vai ser sempre, maioritariamente, feliz. Eu respeito a liberdade de escolha e respeito que as pessoas escolham algo diferente daquilo que eu escolheria. Mas acredito naquilo que estou a dizer, essa é a minha posição pessoal relativamente a este assunto.
Ah, e um aparte...eu nunca me integrei muito, socialmente, em criança e adolescente. Sempre fui diferente, não sei porquê, sempre pensei de forma diferente das minhas colegas, sempre tive preocupações diferentes, sempre reclamei mais, sempre discordei mais, sempre fui mais vocal em relação ao que não concordava. E lembro-me que houve uns anos em que fui alvo de chacota, principalmente para os meninos da turma. Entre o meu 7º e 8º ano. Eu sofria muito e eles sabiam e gostavam disso e faziam mais por eu sofrer e eles conseguirem ver que me afetavam a esse ponto. Para mim, naquela altura, aquilo era o fim do mundo. Aqueles anos poderiam ter determinado o percurso da minha vida. Os meus pais não me ajudaram, eu chorava e explicava-lhes o que acontecia e eles na verdade ficavam irritados por eu me deixar afetar e ainda me diziam coisas como "ah se fosses minha colega eu também gozava contigo porque tu ligas, se não ligasses eles não gozavam contigo". Eu acho que tive sorte porque depois conheci as pessoas certas que me ajudaram e eu consegui erguer-me e ver mais do que aquilo que acontecia. E um dia (eu era muito bem comportada e nunca me metia em sarilhos nas aulas) eu explodi de raiva, depois de uns meninos me terem mandado umas bocas (já nem me lembro que tipo de bocas) no meio de uma aula, sempre pela calada sem o professor ver. Eu levantei-me e virei-me para trás, enfiei a mesa deles contra eles e encurralei-os na parede, o professor a pedir-me para eu parar e eu ignorei-o. E baixinho, enquanto todos os outros se riam da situação, eu disse a esses dois meninos "é a última vez que vocês me mandam uma boca, é a última vez que falam comigo dessa forma, porque da próxima vez eu não vou parar e rebento a mesa em cima de vocês.". Depois parei de empurrar a mesa, pedi desculpa ao professor e saí a meio da aula. Eles nunca mais me mandaram nenhuma boca, nunca mais. E nunca mais nenhum dos outros se atreveu a mandar boca nenhuma. Isto já eu andava no 9º ano. A minha vida tornou-se muito mais fácil, eu fiquei mais confiante e depois comecei a ver-me como eu realmente era e passei a aceitar-me. E embora até hoje seja relativamente sensível ao que os outros me dizem, confio em mim e no meu potencial e sei quem sou, e isso permite-me gostar de mim e saber que dou o meu melhor. E por isso não lamento nada e consigo pôr as coisas más para trás. Aquele dia mudou a minha vida e eu só tive coragem de fazer aquilo porque naquele ano tinha conhecido uma pessoa nova que tinha entrado na minha turma que tinha visto o que acontecia e me tinha dado várias dicas de como agir numa próxima situação. E foi a pessoa certa, no momento certo. Como disse, eu tive sorte em conhecer quem conheci, mas na verdade poderia ter funcionado da mesma forma se a minha família não tivesse desvalorizado e me tivesse aconselhado, tivesse mostrado preocupação com o meu bem-estar, etc. Ou seja, há sempre uma parte que nos cabe a nós, mães e pais, e essa parte é determinante e pode significar tudo.

Dois abortos retidos em Abril e Novembro de 2013.
Positivo a 04/11/2014-É desta!!!! À terceira é de vez!!!!!

Retrato de Butterfly_901
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06.04.2013

Eu conheço um homem com perto de 40 anos, com quase 2mt de altura, que ao nível mental é como se fosse uma criança de 3 anos. Vive permanentemente feliz... Canta, vê filmes, gosta muito de ir à quinta ver os animais. Mas e a mãe?? A senhora tem perto de 65 anos. Tem que lhe dar banho, vesti-lo, entretê-lo. E o pior, é que está a envelhecer. A vida não é fácil para esta mãe.

Conheço outra mulher, esta deve ter cerca de 30 anos que trabalha na mesma câmara que eu. Esta tem um atraso a nível cognitivo, mas quer porque quer casar e ter filhos (ao fim e ao cabo é uma mulher adulta com desejo). A entidade empregadora teve que a tirar das ruas (andava a fazer recados) porque ía para o jardim municipal com todos os homens que encontrasse e fazia-lhes o que eles quisessem. Andava no face a meter-se com homens. Não sabe cuidar de si e coloca-se muitas vezes em situações de grande perigo.

Concordo consigo em tudo...

aries23 escreveu:
Acho que é difícil pormo-nos no lugar dessas crianças porque provavelmente quem tem menor capacidade cognitiva provavelmente não repararia ou sentiria afetado pelas mesmas coisas que nós. Provsvelmente por isso até podem ser felizes desde que tenham quem cuidar deles e estejam protegidos da crueldade de outras crianças e do mundo.
Quanto ao aborto. Podem dizer que há doenças bem piores e que uma pessoa pode acabar por apanhar na mesma, mas isso é como dizer que podemos morrer amanhã com um piano por cima de nós por isso não precisamos de evitar perigos de forma consciente como passar a estrada sem vermos os dois lados. Quando temos capacidade de detetar algo antes do tempo e temos escolha é diferente de quando somos apresentados a uma situação surpresa.
Podem achar egoismo ou dizerem aos outros para "meterem na cabeça de uma vez por todas". Mas o que um acha egoismo pode não ser igual ao outro. Há quem ache egoismo trazer uma criança com deficiência. Toda a gente pode ter a sua opinião subjetiva no que é que é mesmo egoismo, no entanto não é preciso julgar.
Eu sinceramente não sei o que faria, por ser uma decisão difícil. Por isso mesmo que acho que julgamentos neste tema é excusado.
Mas acho que é preciso termos a cabeça na terra quando tomamos esse tipo de decisão pois nos casos que não conseguem ser independentes o que fazem os pais? Eles não estariam cá para sempre e muitos nem têm capacidade financeira para poder um deles ficar em casa a tomar conta da criança. E depois teriam força mental para aguentar o resto da vida deles condicionados completamente pela dependência do filho? Vejo nos filmes onde uma mulher tem que tomar conta de um marido com deficiência grave e o quanto lhes custa, claro que quando se tem marido, mulher ou filhos temos que estar preparados para isso mas quando a realidade aparece não seria fácil e se podessem evitar talvez alguns evitariam. Mas mais uma vez essa decisão seria difícil, pelo que tem que ser tomada por cada casal e não deveria ser julgada. Quem tem que a tomar já sofre o suficiente.

Dois abortos retidos em Abril e Novembro de 2013.
Positivo a 04/11/2014-É desta!!!! À terceira é de vez!!!!!

Retrato de Tyta.B
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31.07.2015

Videl86 escreveu:
Agora tenho a certeza que uma criança/pessoa com limitações que foi muito gozada na escola, embora tenha marcas disso, não pensa que preferia não ter vivido do que ter vivido com esses traumas! Uma criança amada, apreciada e protegida pela sua família, não pensa que preferia nunca ter nascido do que ter nascido e sofrer humilhações na escola! E bullying todos podem sofrer, uns por umas coisas, outros por outras. É nosso papel de mães e pais ensinarmos os nossos filhos a não se deixarem afetar por bullying, estarmos atentas, fazermos o que estiver ao nosso alcance. Acima de tudo, sabermos o que se passa na vida dos nossos filhos por estarmos atentas, e não porque esperamos que eles nos venham contar porque muitas vezes não o fazem.
Quando eu estava grávida do meu filho não consegui fazer rastreio do 1º trimestre. Ele não colaborou, não permitiu fazer o exame, mesmo depois de horas a tentar. Na altura eu ainda vivia em Inglaterra e eles lá tentam aquele dia e não insistem mais. Disseram-me para voltar às 15 semanas para fazer um exame de sangue e obter uma probabilidade para T21. Mas o rastreio bioquímico teria sido mais fiável, mesmo que sendo probabilístico. Eu pensei muito na altura. Eu sabia que não ia abortar se tivesse T21...e sabia que não ia abortar a não ser num caso muito extrema. Nessa altura eu já estava de viagem marcada para Portugal, para regressar, e o que pensei foi "Vai correr tudo bem, ele vai ser saudável. Se não for, nós conseguimos dar conta da situação. Se a situação for muito grave, nós voltamos para Inglaterra ou vamos para um país onde eu possa garantir tudo do melhor ao meu filho, como acesso a ensino inclusivo de qualidade. Se for preciso, nós arranjamos uma forma de eu parar de trabalhar e passar a ser responsável pela educação dele. O meu filho vai ser amado, desejado e feliz e vai saber isso sempre, e vai ser tão amado e tão feliz que nenhuma situação má o vai afetar ao ponto dele querer não estar vivo.". Este foi o plano que fiz na minha cabeça. O meu filho nasceu saudável e até hoje é um menino muito ativo, saudável e, acima de tudo, feliz. Ele tem um atraso a nível do desenvolvimento da linguagem e é acompanhado devidamente, e eu como mãe já tive momentos de pânico interior em que pensava que não queria que o meu filho sofresse, que daqui a pouco outros meninos da idade dele vão perceber que ele não se comunica da mesma forma ou com a mesma fluidez, etc etc e senti e sinto, por vezes, medo daquilo que ele possa passar. Mas ele tem e vai ter sempre uma família que acredita nele e acha que ele é capaz de tudo, que o vai apoiar sempre e que está disposta a fazer qualquer sacrifício pela felicidade dele. E ele vai crescer a saber isso e portanto eu sei que ele vai ser sempre, maioritariamente, feliz. Eu respeito a liberdade de escolha e respeito que as pessoas escolham algo diferente daquilo que eu escolheria. Mas acredito naquilo que estou a dizer, essa é a minha posição pessoal relativamente a este assunto.
Ah, e um aparte...eu nunca me integrei muito, socialmente, em criança e adolescente. Sempre fui diferente, não sei porquê, sempre pensei de forma diferente das minhas colegas, sempre tive preocupações diferentes, sempre reclamei mais, sempre discordei mais, sempre fui mais vocal em relação ao que não concordava. E lembro-me que houve uns anos em que fui alvo de chacota, principalmente para os meninos da turma. Entre o meu 7º e 8º ano. Eu sofria muito e eles sabiam e gostavam disso e faziam mais por eu sofrer e eles conseguirem ver que me afetavam a esse ponto. Para mim, naquela altura, aquilo era o fim do mundo. Aqueles anos poderiam ter determinado o percurso da minha vida. Os meus pais não me ajudaram, eu chorava e explicava-lhes o que acontecia e eles na verdade ficavam irritados por eu me deixar afetar e ainda me diziam coisas como "ah se fosses minha colega eu também gozava contigo porque tu ligas, se não ligasses eles não gozavam contigo". Eu acho que tive sorte porque depois conheci as pessoas certas que me ajudaram e eu consegui erguer-me e ver mais do que aquilo que acontecia. E um dia (eu era muito bem comportada e nunca me metia em sarilhos nas aulas) eu explodi de raiva, depois de uns meninos me terem mandado umas bocas (já nem me lembro que tipo de bocas) no meio de uma aula, sempre pela calada sem o professor ver. Eu levantei-me e virei-me para trás, enfiei a mesa deles contra eles e encurralei-os na parede, o professor a pedir-me para eu parar e eu ignorei-o. E baixinho, enquanto todos os outros se riam da situação, eu disse a esses dois meninos "é a última vez que vocês me mandam uma boca, é a última vez que falam comigo dessa forma, porque da próxima vez eu não vou parar e rebento a mesa em cima de vocês.". Depois parei de empurrar a mesa, pedi desculpa ao professor e saí a meio da aula. Eles nunca mais me mandaram nenhuma boca, nunca mais. E nunca mais nenhum dos outros se atreveu a mandar boca nenhuma. Isto já eu andava no 9º ano. A minha vida tornou-se muito mais fácil, eu fiquei mais confiante e depois comecei a ver-me como eu realmente era e passei a aceitar-me. E embora até hoje seja relativamente sensível ao que os outros me dizem, confio em mim e no meu potencial e sei quem sou, e isso permite-me gostar de mim e saber que dou o meu melhor. E por isso não lamento nada e consigo pôr as coisas más para trás. Aquele dia mudou a minha vida e eu só tive coragem de fazer aquilo porque naquele ano tinha conhecido uma pessoa nova que tinha entrado na minha turma que tinha visto o que acontecia e me tinha dado várias dicas de como agir numa próxima situação. E foi a pessoa certa, no momento certo. Como disse, eu tive sorte em conhecer quem conheci, mas na verdade poderia ter funcionado da mesma forma se a minha família não tivesse desvalorizado e me tivesse aconselhado, tivesse mostrado preocupação com o meu bem-estar, etc. Ou seja, há sempre uma parte que nos cabe a nós, mães e pais, e essa parte é determinante e pode significar tudo.

Isto já é off topic, mas infelizmente no "campo bullying" eu tenho experiência e vou ter de discordar. Cabe aos pais ajudar os filhos a ter autoestima suficiente para lidar com essas bocas e provocações, mas quando o bullying se traduz em agressões físicas o que é suposto uma mãe fazer? O meu filho todos os dias levava porrada de 2 miúdos, um deles com 10 anos pesava 60 kg - o dobro do meu filho - e o outro, como era filho de professores, a escola protegia-o e recusava-se a ajudar-me. Vi-me obrigada a fazer queixa na GNR. O meu miúdo, que não tem problemas nenhuns, facilmente contou toda a história aos 2 agentes que nos atenderam, à médica que fez o exame corporal, à assistente social, e mais tarde ao professor encarregado do processo disciplinar que o tribunal obrigou a escola a abrir. Agora digam-me, uma criança com problemas em se conseguir explicar, como ia conseguir fazê-lo?

Seja como for, e voltando a falar de forma egoísta, o sentimento de impotência e de nulidade que senti naquela época arrasou-me. Ter um filho dependente ia-me provocar este sentimento a vida toda, principalmente porque ia cismar no futuro, quando eu já cá não estivesse para lhe poder proporcionar o melhor possível.

Mas tenho um imenso respeito por quem tem coragem de embarcar numa jornada destas de forma consciente. Vocês são bem mais corajosas que eu.

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18.07.2014

Tyta, eu já pensei em muitos cenários, mesmo os mais extremos (de bullying) e eu era menina para mudar de cidade/país se não visse alternativa. Fá-lo-ia sem hesitar muito. Eu acredito que com empenho, dedicação, esforço, somos capazes de tudo, então acredito muito nos planos a longo prazo que nós definimos. Começar de novo não me assusta. Se eu tivesse um filho que eu acreditasse ser limitado a um ponto que não conseguiria relatar situações vividas, era perfeitamente capaz de o colocar em ensino doméstico, frequentar grupos de socialização e pronto, assunto resolvido (aqui em casa somos bastante empreendedoras e temos sempre 2 ou três projeto profissionais em simultâneo para o caso de alguma coisa ter de parar).

A única coisa que me faz confusão é essa questão de o que iria acontecer depois de eu morrer. Parte-me o coração pensar. Mas não conseguiria interromper uma gravidez apenas por causa disso. Provavelmente iria acreditar que no tempo que conseguisse estar aqui ia haver alguma coisa inovador que ia fazer com que quando eu morresse já existissem soluções para estas situações.

Butterfly, engraçado, as nossas situações têm realmente algumas semelhanças, o meu irmão também sempre teve muitas dificuldades com a linguagem. Não tantas como o seu irmão, mas teve mais dificuldades do que o normal. e eu acho que isto tem algo de hereditário. Eu estou convencida que o meu filho tem DEL (distúrbio específico de linguagem), ele vai agora este mês a um novo pediatra do desenvolvimento que têm experiência com este tipo de casos, assim daqui a pouco terei um diagnóstico mais específico. Eu até acho que a nível expressivo ele tem feito grandes evoluções, ele consegue comunicar muito bem aquilo que quer. Noto agora que, embora faça frases, falham-lhe os conectores. Por exemplo, ele pede-me uma coisa qualquer, uma bolacha por exemplo. Eu vou buscar a bolacha e dou-lhe para a mão e ele diz "Obrigada bolacha, mamã", quando deveria dizer "Obrigada PELA bolacha, mamã". Também tem tendência para trocar a ordem das palavras na frase, em particular se forem frases que ele não diz habitualmente, por exemplo "quero por isto no lixo da cozinha" (quando eu lhe estou a dizer para pôr no lixo do quarto), é possível que ele diga "quero pô cozinha, lixo". Mas comunica-se relativamente bem, no sentido em que até pessoas estranhas entendem aquilo que ele diz, nem sempre mas muitas vezes. A maior dificuldade que noto nele é a nível da linguagem recetiva, eu acho que ele tem alguma dificuldade em entender o que lhe é dito, especialmente se for uma estrutura complexa com várias orações ou mesmo condicionais. Por exemplo, para eu ter a certeza que ele me entende, digo-lhe "Primeiro tens de comer a sopa, depois podes comer gelatina!" porque se eu lhe disser "Se não comeres a sopa não comes a gelatina" ele é capaz de não perceber à primeira (dupla negativa); ou em vez de dizer "se acabares a tua fruta, a mãe depois dá-te uma bolacha!", digo-lhe "come a fruta e depois há bolacha". DEL é diferente em todas as crianças e tem vários níveis, uns mais suaves outros mais severos. As crianças com DEL têm uma área do cérebro que funciona de uma forma ligeiramente diferente do típico, e é precisamente a área que está afetada nas pessoas com dislexia. DEL está, de certa forma, ligado com dislexia. A maioria das crianças com DEL acabam por desenvolver a linaguagem tal como as outras crianças e em adultos geralmente não se nota diferença, mas o esforço que fazem é muito maior, então quando entram na escola têm tendência a ter dificuldades porque o seu entendimento da linguagem oral não é o nosso entendimento. Quando falei desta possibilidade de DEL ao pediatra do meu menino, e referi o meu irmão, ele perguntou logo "como é que correu na escola com o seu irmão?" e eu disse "na escola foi o princípio do fim" e foi, para o meu irmão foi. Ele sempre foi mau aluno e naquele tempo as pessoas não tinham muita informação, os meus pais achavam que ele era preguiçoso, chamavam-lhe burro, etc. Os professores não ajudavam muito. A situação foi-se arrastando e ele reprovou no 9º ano. Depois tentou fazer cursos profissionais para equivalência a 12º ano mas desmotivou muito e desistiu de estudar (já com o 9º ano). Acabou por fazer um profissional e ter equivalência a 12º aos 25 anos. O engraçado é que o meu irmão sempre foi muito popular e nunca teve nenhum tipo de dificuldade social, sempre teve muitos amigos e dava-se bem com toda a gente - eu sempre fui ótima aluna a tudo e tinha vários problemas de integração social lol
Bem, posto isto, eu percebi logo que o meu filho poderia ter o mesmo que o meu irmão tinha e imediatamente prometi a mim própria que não ia deixar que lhe acontecesse o que aconteceu ao meu irmão (a desmotivação, a falta de ajuda, etc) e estou confiante que começando intervenção agora ele não vai ter problemas de maior no futuro. Se eu vir que tem, eu sou professora de 1º ciclo, não me importo de o colocar em ensino doméstico se for absolutamente necessário para ele desenvolver todo o seu potencial, pelo menos durante o período de 1º ciclo que considero o mais importante e a nossa base escolar. Penso que talvez o seu filhote possa ter alguma coisa parecida. Não é o que queremos, claro, mas felizmente não é nada de grave e temos muitas formas de os ajudar Sorriso

08 de dezembro de 2014 <3
49,5 cm e 2,920 de amor e doçura <3

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12.12.2016

aries23 escreveu:
Acho que é difícil pormo-nos no lugar dessas crianças porque provavelmente quem tem menor capacidade cognitiva provavelmente não repararia ou sentiria afetado pelas mesmas coisas que nós. Provsvelmente por isso até podem ser felizes desde que tenham quem cuidar deles e estejam protegidos da crueldade de outras crianças e do mundo.
Quanto ao aborto. Podem dizer que há doenças bem piores e que uma pessoa pode acabar por apanhar na mesma, mas isso é como dizer que podemos morrer amanhã com um piano por cima de nós por isso não precisamos de evitar perigos de forma consciente como passar a estrada sem vermos os dois lados. Quando temos capacidade de detetar algo antes do tempo e temos escolha é diferente de quando somos apresentados a uma situação surpresa.
Podem achar egoismo ou dizerem aos outros para "meterem na cabeça de uma vez por todas". Mas o que um acha egoismo pode não ser igual ao outro. Há quem ache egoismo trazer uma criança com deficiência. Toda a gente pode ter a sua opinião subjetiva no que é que é mesmo egoismo, no entanto não é preciso julgar.
Eu sinceramente não sei o que faria, por ser uma decisão difícil. Por isso mesmo que acho que julgamentos neste tema é excusado.
Mas acho que é preciso termos a cabeça na terra quando tomamos esse tipo de decisão pois nos casos que não conseguem ser independentes o que fazem os pais? Eles não estariam cá para sempre e muitos nem têm capacidade financeira para poder um deles ficar em casa a tomar conta da criança. E depois teriam força mental para aguentar o resto da vida deles condicionados completamente pela dependência do filho? Vejo nos filmes onde uma mulher tem que tomar conta de um marido com deficiência grave e o quanto lhes custa, claro que quando se tem marido, mulher ou filhos temos que estar preparados para isso mas quando a realidade aparece não seria fácil e se podessem evitar talvez alguns evitariam. Mas mais uma vez essa decisão seria difícil, pelo que tem que ser tomada por cada casal e não deveria ser julgada. Quem tem que a tomar já sofre o suficiente.

Não foi para julgar ninguém que eu comentei. Cada um é livre de fazer o que quiser e não julgo quem fez ou faria um aborto nestas situações. Simplesmente quis relembrar que a vida é feita de acontecimentos inesperados e não vale a pena dizer "eu não conseguiria cuidar de um filho deficiente" ou "eu não conseguiria viver a pensar no futuro dele" porque sem esperarmos as coisas acontecem e de repente somos todas capazes de cuidar e viver com uma criança deficiente porque é nosso filho, que amamos e por quem fazemos tudo.
Agora claro ninguém quer nem ninguém idealiza mas se acontecer, vamos à luta!

Retrato de SU NEVES
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19.11.2012

Bem, estou a ver que realmente e um assunto controverso. Mas foi bom ouvir outras opiniões. E um assunto em que penso bastante. Tive o meu filho, saudável graças a deus, com 15 anos, criei o praticamente sozinha e as vezes penso, se não quis abortar naquela altura difícilmente alguma coisa me faria abortar agora. Embora, seja totalmente a favor do aborto acho que em qualquer cenário a mulher tem direito a dizer "eu não estou preparada para isto". Mas conscientemente não metia um filho ao mundo com deficiência. Claro que durante a vida, pode sempre acontecer coisas más, mas são as circunstâncias da vida e não uma escolha egoísta da minha parte. Agradeço a todas as meninas que postaram no tópico. E claro desejo tudo de melhor para cada uma de vocês.

2001 nasceu o meu Leandro
Treinante 2º viagem desde 09/2014

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18.07.2016

Lili79 escreveu:

aries23 escreveu:Acho que é difícil pormo-nos no lugar dessas crianças porque provavelmente quem tem menor capacidade cognitiva provavelmente não repararia ou sentiria afetado pelas mesmas coisas que nós. Provsvelmente por isso até podem ser felizes desde que tenham quem cuidar deles e estejam protegidos da crueldade de outras crianças e do mundo.
Quanto ao aborto. Podem dizer que há doenças bem piores e que uma pessoa pode acabar por apanhar na mesma, mas isso é como dizer que podemos morrer amanhã com um piano por cima de nós por isso não precisamos de evitar perigos de forma consciente como passar a estrada sem vermos os dois lados. Quando temos capacidade de detetar algo antes do tempo e temos escolha é diferente de quando somos apresentados a uma situação surpresa.
Podem achar egoismo ou dizerem aos outros para "meterem na cabeça de uma vez por todas". Mas o que um acha egoismo pode não ser igual ao outro. Há quem ache egoismo trazer uma criança com deficiência. Toda a gente pode ter a sua opinião subjetiva no que é que é mesmo egoismo, no entanto não é preciso julgar.
Eu sinceramente não sei o que faria, por ser uma decisão difícil. Por isso mesmo que acho que julgamentos neste tema é excusado.
Mas acho que é preciso termos a cabeça na terra quando tomamos esse tipo de decisão pois nos casos que não conseguem ser independentes o que fazem os pais? Eles não estariam cá para sempre e muitos nem têm capacidade financeira para poder um deles ficar em casa a tomar conta da criança. E depois teriam força mental para aguentar o resto da vida deles condicionados completamente pela dependência do filho? Vejo nos filmes onde uma mulher tem que tomar conta de um marido com deficiência grave e o quanto lhes custa, claro que quando se tem marido, mulher ou filhos temos que estar preparados para isso mas quando a realidade aparece não seria fácil e se podessem evitar talvez alguns evitariam. Mas mais uma vez essa decisão seria difícil, pelo que tem que ser tomada por cada casal e não deveria ser julgada. Quem tem que a tomar já sofre o suficiente.

Não foi para julgar ninguém que eu comentei. Cada um é livre de fazer o que quiser e não julgo quem fez ou faria um aborto nestas situações. Simplesmente quis relembrar que a vida é feita de acontecimentos inesperados e não vale a pena dizer "eu não conseguiria cuidar de um filho deficiente" ou "eu não conseguiria viver a pensar no futuro dele" porque sem esperarmos as coisas acontecem e de repente somos todas capazes de cuidar e viver com uma criança deficiente porque é nosso filho, que amamos e por quem fazemos tudo.
Agora claro ninguém quer nem ninguém idealiza mas se acontecer, vamos à luta!

Não vale a pena para si evitar, tudo bem. Cada um é livre de pensar como quer. No entanto cabe a si expor os seus argumentos de forma mais ou menos diplomática em vez de "metam na cabeça" ou algo semelhante (não sei qual foi o que a Lili colocou, o meu comentário também foi para mais que um comentário).

Mas acho é que não vale a pena repetir o que já foi dito neste tópico. A Lili ou outra mamã disse que não vale a pena evitar pois nunca sabemos o que nos espera, eu disse que isso é como dizer que podemos morrer amanhã por isso não precisamos de nos preocupar com nada, o que vale estarmos em ciclo a escrever o mesmo? Já disse tudo no meu último comentário, não tenho mais nada a acrescentar.

Retrato de Mama do Martim
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29.03.2010

O meu filho do meio teve no rasteio do primeiro trimestre a probabilidade de 1/4 de ser portador de trissomia 21. Avancei para a amniocentese só e apenas para ter certezas e me poder preparar para o receber da melhor maneira,porque nem por 1 segundo me passou pela cabeça abortar.
Actualmente tem quase 4 anos,é "normal",lindo,saudável e esta vivo e estaria ba mesma se fosse portador de trissomia.

Só interromperia uma gravidez se o bebé tivesse algo incompatível com a vida ou que lhe provocasse uma vida de sofrimento.

* Martim * 11-11-2008* 3190g e 49,5cm *
* Valentim * 01-12-2013 * 2160g e 43cm *
* Francisca * 15-07-2016 * 2760g e 46,5cm *

Retrato de dona_amora
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20.05.2012

Ana Svensson escreveu:
Eu não faria. A única possibilidade de um dia vir a fazer um aborto seria se o bebé tivesse algum problema que o impedisse de sobreviver depois de nascer. Trissomia 21 não é o fim do mundo. Há tantas outras doenças priores e mais incapacitantes. Acho sinceramente que quem usa o argumento de que a criança iria ser infeliz e sofrer a vida toda, o faz como forma de se convencer a si própria que não está a tomar uma decisão egoísta. A verdade é que ter um filho com trissomia 21 complica muito a nossa vida e naturalmente nenhuma de nós sonhou com isso. Mas para a criança não é uma sentença de uma vida infeliz. Podemos ter um bebé perfeitamente saudável que meses ou anos mais tarde fique gravemente doente ou incapacitado e não é por isso que a solução passa por matá-lo. Da mesma forma, uma pessoa dita normal pode ser muito mais infeliz do que uma pessoa com deficiência e pode também ser descriminada por tantos outros aspectos. Não podemos prever ,no momento em que estamos grávidas, como será a vida do nosso filho, independentemente de parecer ou não saudável na ecografia. E eu não me sintonia no direito de decidir que um filho não poderia viver porque afinal não é bem como eu imaginei.

Concordo com esta mamã

Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o címbalo que retine.

Retrato de FSilsa
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08.04.2014

Olá, pelo que leio aqui quando falam da IVG, a diferença da decisão de abortar ou não, está no momento que as mães consideram como o "nascimento do bebé". As que consideram o nascimento quando o bebé vem ao mundo, teriam coragem de abortar para evitar sofrimento, etc etc. As outras que não teriam coragem de abortar consideram o nascimento no momento da concepção e aí não teriam coragem de o abortar porque a diferença é que o bebé ainda está na barriga e não cá fora.
O "engraçado" é que nem mesmo as que abortariam consideram a hipótese de à nascença matar o bebe, quando adquire deficiência no momento do parto.
Eu, não teria coragem de abortar, porque considero o nascimento no bebe, no momento da concepção. Cá fora ou na barriga ele existe na mesma e se não o teria coragem de matar com 9 meses (quando nasce) também não o mataria na barriga. Se ele morreria mal nascesse, era um mal inevitável , por isso não valeria a pena levar a gravidez adiante. E mesmo assim seria uma decisão muito muito difícil. A minha mãe fez uma IVG com 6 meses porque o bebe não sobreviveria, era totalmente deficiente e a vida cá fora seria impossível. Até hoje ela sofre com essa perda.
Como ela, tantas mães aqui sofrem quando sofrem um aborto espontâneo, mesmo as que têm gravidez anembrionária. Por isso, o bebe, mesmo que do tamanho de um feijão já existe, e é um ser vivo e não seria eu a escolher quando terminar com a vida dele, caso sobrevivesse após o nascimento.

Quanto às dificuldades que uma pessoa com necessidades especiais enfrenta, conheço a Sónia, entendo o ponto de vista dela e de todas as pessoas que têm a mesma opinião, e sei que ela apesar de independente tem as suas limitações. Sei que tem de se esforçar mais que nós para ter o mesmo. Tem de fazer um esforço maior para chegar ao trabalho e há coisas que nunca poderá fazer. No entanto, não considero-a uma pessoa infeliz. Quantas e quantas pessoas sem nenhuma deficiência são mais infelizes que ela e que qualquer pessoa com necessidades especiais? Por isso não acho que seja uma consequência da deficiência a infelicidade.
Quanto ao esforço, não é preciso sermos deficientes para saber que quando nos esforçamos por ter alguma coisa ou alcançar um objetivo ele tem um sabor muito melhor e damos muito mais valor a ele. Quantos e quantos já nascem em berços de ouro, e são infelizes e não encontram sentido na sua vida?
Quando ao futuro... É isso mesmo, o futuro, ninguém o adivinha nem o pode controlar. Ainda à dias uma conhecida de 50 anos, caiu e só consegue mexer a cabeça... Os pais já morreram... Quem vai cuidar dela? O marido? Os filhos? É uma incerteza... No caso de quem já nasce deficiente, cabe aos pais, durante o resto da sua vida garantir o futuro desses filhos e do seu bem estar, seja arranjando uma instituição, seja lá como for. E eles mesmo com muito pouco são capazes de ser mais felizes que nós que supostamente "temos tudo" e nunca damos valor a isso.
Posto isto, escusado será dizer que concordo com a Ana Svensson.
De resto, as pessoas com necessidades especiais inspiram-me e fazem-me muitas vezes ver o mundo de outra forma e são muitas vezes usadas para calar a boca do meu marido que apesar de saudável, esforça-se imenso por estragar a sua saúde com o vício do tabaco entre outros.
Tudo de bom para vocês.

Retrato de Lili79
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12.12.2016

aries23 escreveu:

Lili79 escreveu:
aries23 escreveu:Acho que é difícil pormo-nos no lugar dessas crianças porque provavelmente quem tem menor capacidade cognitiva provavelmente não repararia ou sentiria afetado pelas mesmas coisas que nós. Provsvelmente por isso até podem ser felizes desde que tenham quem cuidar deles e estejam protegidos da crueldade de outras crianças e do mundo.
Quanto ao aborto. Podem dizer que há doenças bem piores e que uma pessoa pode acabar por apanhar na mesma, mas isso é como dizer que podemos morrer amanhã com um piano por cima de nós por isso não precisamos de evitar perigos de forma consciente como passar a estrada sem vermos os dois lados. Quando temos capacidade de detetar algo antes do tempo e temos escolha é diferente de quando somos apresentados a uma situação surpresa.
Podem achar egoismo ou dizerem aos outros para "meterem na cabeça de uma vez por todas". Mas o que um acha egoismo pode não ser igual ao outro. Há quem ache egoismo trazer uma criança com deficiência. Toda a gente pode ter a sua opinião subjetiva no que é que é mesmo egoismo, no entanto não é preciso julgar.
Eu sinceramente não sei o que faria, por ser uma decisão difícil. Por isso mesmo que acho que julgamentos neste tema é excusado.
Mas acho que é preciso termos a cabeça na terra quando tomamos esse tipo de decisão pois nos casos que não conseguem ser independentes o que fazem os pais? Eles não estariam cá para sempre e muitos nem têm capacidade financeira para poder um deles ficar em casa a tomar conta da criança. E depois teriam força mental para aguentar o resto da vida deles condicionados completamente pela dependência do filho? Vejo nos filmes onde uma mulher tem que tomar conta de um marido com deficiência grave e o quanto lhes custa, claro que quando se tem marido, mulher ou filhos temos que estar preparados para isso mas quando a realidade aparece não seria fácil e se podessem evitar talvez alguns evitariam. Mas mais uma vez essa decisão seria difícil, pelo que tem que ser tomada por cada casal e não deveria ser julgada. Quem tem que a tomar já sofre o suficiente.

Não foi para julgar ninguém que eu comentei. Cada um é livre de fazer o que quiser e não julgo quem fez ou faria um aborto nestas situações. Simplesmente quis relembrar que a vida é feita de acontecimentos inesperados e não vale a pena dizer "eu não conseguiria cuidar de um filho deficiente" ou "eu não conseguiria viver a pensar no futuro dele" porque sem esperarmos as coisas acontecem e de repente somos todas capazes de cuidar e viver com uma criança deficiente porque é nosso filho, que amamos e por quem fazemos tudo.
Agora claro ninguém quer nem ninguém idealiza mas se acontecer, vamos à luta!

Não vale a pena para si evitar, tudo bem. Cada um é livre de pensar como quer. No entanto cabe a si expor os seus argumentos de forma mais ou menos diplomática em vez de "metam na cabeça" ou algo semelhante (não sei qual foi o que a Lili colocou, o meu comentário também foi para mais que um comentário).
Mas acho é que não vale a pena repetir o que já foi dito neste tópico. A Lili ou outra mamã disse que não vale a pena evitar pois nunca sabemos o que nos espera, eu disse que isso é como dizer que podemos morrer amanhã por isso não precisamos de nos preocupar com nada, o que vale estarmos em ciclo a escrever o mesmo? Já disse tudo no meu último comentário, não tenho mais nada a acrescentar.

Se acha que eu não fui diplomática, que dizer desse seu comentário???
Não lhe cabe a si decidir se eu posso ou não repetir-me mas enfim...
Desculpem esse off tópico mas às vezes fico pasmada com certos comentários, estamos num fórum de discussão e há pessoas que não aceitam os comentários que diferem do seu ponto de vista...

Retrato de Diana Mar
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16.04.2011

Bem... eu sou a favor do aborto embora, pessoalmente, não abortasse... excepto se houvesse uma deficiência. Ou seja, tinha o filho de um violador mas não teria um que eu já soubesse que era deficiente.
Na minha família tive o caso de um primo em 3º grau com trissomia e extremamente dependente dos pais e eu não queria isso para mim nem para o meu filho.
Tive tb o caso de uma prima em 4º grau que era surda muda e que foi enganada por um homem (levou a a pensar que se casaria com ela e "desonrou-a" e depois cagou nela). Não sei se ela já tinha algum grau de deficiÊncia ou não mas, depois disso, sei que ela regrediu muito, tornava-se violenta e foi infeliz o resto da vida... ela e os pais... E eu não queria isso para mim e para um filho meu.
Por isso, pode ser egoismo? sim pode. Mas eu não teria um filho que eu sabia, logo de início, que era deficiente.
E eu penso muito nisso agora, que estou a tentar engravidar novamente e já com 40 anos... QUero tanto um filho, se tivesse trissomia, seria capaz de o abortar?
COm o coração partido mas seria.
Apesar de eu ter vivido ao lado de uma CERCISA uns 15 anos, ter convivido de perto com essas crianças, ter tido colegas deficientes na primária... Eram crianças alegres mas tristes ao mesmo tempo. Porque não se adaptavam a 100% (nem a 90%) neste Mundo, porque eram gozadas, porque não atingiam os mesmos patamares das outras crianças (e elas eram deficientes, não burras e viam bem isso).
Sempre tive bem marcado em mim que queria muito ser mãe mas que, a haver uma deficiência detectada que não pudesse ser resolvida, não teria a criança.

David: Amor da mãe, Adoro-te!!!

Retrato de aries23
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18.07.2016

Lili79 escreveu:

aries23 escreveu:
Lili79 escreveu:
aries23 escreveu:Acho que é difícil pormo-nos no lugar dessas crianças porque provavelmente quem tem menor capacidade cognitiva provavelmente não repararia ou sentiria afetado pelas mesmas coisas que nós. Provsvelmente por isso até podem ser felizes desde que tenham quem cuidar deles e estejam protegidos da crueldade de outras crianças e do mundo.
Quanto ao aborto. Podem dizer que há doenças bem piores e que uma pessoa pode acabar por apanhar na mesma, mas isso é como dizer que podemos morrer amanhã com um piano por cima de nós por isso não precisamos de evitar perigos de forma consciente como passar a estrada sem vermos os dois lados. Quando temos capacidade de detetar algo antes do tempo e temos escolha é diferente de quando somos apresentados a uma situação surpresa.
Podem achar egoismo ou dizerem aos outros para "meterem na cabeça de uma vez por todas". Mas o que um acha egoismo pode não ser igual ao outro. Há quem ache egoismo trazer uma criança com deficiência. Toda a gente pode ter a sua opinião subjetiva no que é que é mesmo egoismo, no entanto não é preciso julgar.
Eu sinceramente não sei o que faria, por ser uma decisão difícil. Por isso mesmo que acho que julgamentos neste tema é excusado.
Mas acho que é preciso termos a cabeça na terra quando tomamos esse tipo de decisão pois nos casos que não conseguem ser independentes o que fazem os pais? Eles não estariam cá para sempre e muitos nem têm capacidade financeira para poder um deles ficar em casa a tomar conta da criança. E depois teriam força mental para aguentar o resto da vida deles condicionados completamente pela dependência do filho? Vejo nos filmes onde uma mulher tem que tomar conta de um marido com deficiência grave e o quanto lhes custa, claro que quando se tem marido, mulher ou filhos temos que estar preparados para isso mas quando a realidade aparece não seria fácil e se podessem evitar talvez alguns evitariam. Mas mais uma vez essa decisão seria difícil, pelo que tem que ser tomada por cada casal e não deveria ser julgada. Quem tem que a tomar já sofre o suficiente.

Não foi para julgar ninguém que eu comentei. Cada um é livre de fazer o que quiser e não julgo quem fez ou faria um aborto nestas situações. Simplesmente quis relembrar que a vida é feita de acontecimentos inesperados e não vale a pena dizer "eu não conseguiria cuidar de um filho deficiente" ou "eu não conseguiria viver a pensar no futuro dele" porque sem esperarmos as coisas acontecem e de repente somos todas capazes de cuidar e viver com uma criança deficiente porque é nosso filho, que amamos e por quem fazemos tudo.
Agora claro ninguém quer nem ninguém idealiza mas se acontecer, vamos à luta!

Não vale a pena para si evitar, tudo bem. Cada um é livre de pensar como quer. No entanto cabe a si expor os seus argumentos de forma mais ou menos diplomática em vez de "metam na cabeça" ou algo semelhante (não sei qual foi o que a Lili colocou, o meu comentário também foi para mais que um comentário).
Mas acho é que não vale a pena repetir o que já foi dito neste tópico. A Lili ou outra mamã disse que não vale a pena evitar pois nunca sabemos o que nos espera, eu disse que isso é como dizer que podemos morrer amanhã por isso não precisamos de nos preocupar com nada, o que vale estarmos em ciclo a escrever o mesmo? Já disse tudo no meu último comentário, não tenho mais nada a acrescentar.

Se acha que eu não fui diplomática, que dizer desse seu comentário???
Não lhe cabe a si decidir se eu posso ou não repetir-me mas enfim...
Desculpem esse off tópico mas às vezes fico pasmada com certos comentários, estamos num fórum de discussão e há pessoas que não aceitam os comentários que diferem do seu ponto de vista...

Acho estranho que a Lili pode dizer o que vale ou não vale a pena, mas quando eu digo "acho que não vale a pena" que é mais suave que um "não vale a pena" ou "metam nas vossas cabeças", reage dessa forma. Ou seja, diz que "não vale a pena dizer x" e eu digo que "não vale a pena repetirmos o que já dizemos" e acusa de que os outros é que não aceitam as opiniões quando o julgamento nem sequer foi do meu lado. Mas pronto, não me interessa mais debater a esse nível.

Retrato de carlaper
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11.10.2011

Não vou dizer que não compreendo que se tenha receio do futuro perante a deficiência, mas se pensarmos bem, actualmente, colocar um filho no mundo por mais saudável que seja, é sempre colocá-lo num mundo de incertezas. Não sabemos o futuro, mas olhando ao nosso redor, não me parece que daqui a uns anos seja propriamente fácil viver. Os recursos podem faltar, as guerras são cada vez uma realidade mais próxima de todos, as doenças, a poluição, tudo. O futuro não parece risonho, mas nós decidimos ter filhos. A deficiência assusta, sim. Porque não a compreendemos e temos sempre medo daquilo que não conhecemos. Acredito que a vida é muito mais abrangente do que o que conseguimos percepcionar e que todos, saudáveis ou não, temos um papel importante a desempenhar. Todos somos importantes, se a vida nos permite viver.
"Os filhos não são os teus filhos, são os filhos da vida por si própria. Vem através de ti, mas não de ti, e embora estejam contigo não te pertencem."
Tão verdade Piscar o olho

Retrato de LiaF
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Videl86 escreveu:
Custa a qualquer mãe pensar que o filho pode ser alvo de discriminações e humilhações, mas na verdade nós não o podemos evitar. Eu faria um aborto se fosse detetada uma doença incompatível com a vida ou uma doença que, mesmo sendo inicialmente compatível, tivesse um prognóstico tão mau que eu soubesse que o meu filho(a) ia viver poucos anos e sempre em sofrimento físico, sempre dentro de hospitais/cirurgias. Que não é o caso de T21, quando não há outros problemas associados pelo menos (por vezes existem, especialmente cardíacos, mas é feito um estudo e uma pessoa consegue ter uma ideia até que ponto a saúde física será afetada). E aquelas doenças mesmo horríveis e incapacitantes geralmente não são detetadas no pré-natal, muitas vezes só se desenvolvem fora da barriga (daí eu ter tanto medo de beijos em recém-nascidos ou bebés, etc).
Agora tenho a certeza que uma criança/pessoa com limitações que foi muito gozada na escola, embora tenha marcas disso, não pensa que preferia não ter vivido do que ter vivido com esses traumas! Uma criança amada, apreciada e protegida pela sua família, não pensa que preferia nunca ter nascido do que ter nascido e sofrer humilhações na escola! E bullying todos podem sofrer, uns por umas coisas, outros por outras. É nosso papel de mães e pais ensinarmos os nossos filhos a não se deixarem afetar por bullying, estarmos atentas, fazermos o que estiver ao nosso alcance. Acima de tudo, sabermos o que se passa na vida dos nossos filhos por estarmos atentas, e não porque esperamos que eles nos venham contar porque muitas vezes não o fazem.
Quando eu estava grávida do meu filho não consegui fazer rastreio do 1º trimestre. Ele não colaborou, não permitiu fazer o exame, mesmo depois de horas a tentar. Na altura eu ainda vivia em Inglaterra e eles lá tentam aquele dia e não insistem mais. Disseram-me para voltar às 15 semanas para fazer um exame de sangue e obter uma probabilidade para T21. Mas o rastreio bioquímico teria sido mais fiável, mesmo que sendo probabilístico. Eu pensei muito na altura. Eu sabia que não ia abortar se tivesse T21...e sabia que não ia abortar a não ser num caso muito extrema. Nessa altura eu já estava de viagem marcada para Portugal, para regressar, e o que pensei foi "Vai correr tudo bem, ele vai ser saudável. Se não for, nós conseguimos dar conta da situação. Se a situação for muito grave, nós voltamos para Inglaterra ou vamos para um país onde eu possa garantir tudo do melhor ao meu filho, como acesso a ensino inclusivo de qualidade. Se for preciso, nós arranjamos uma forma de eu parar de trabalhar e passar a ser responsável pela educação dele. O meu filho vai ser amado, desejado e feliz e vai saber isso sempre, e vai ser tão amado e tão feliz que nenhuma situação má o vai afetar ao ponto dele querer não estar vivo.". Este foi o plano que fiz na minha cabeça. O meu filho nasceu saudável e até hoje é um menino muito ativo, saudável e, acima de tudo, feliz. Ele tem um atraso a nível do desenvolvimento da linguagem e é acompanhado devidamente, e eu como mãe já tive momentos de pânico interior em que pensava que não queria que o meu filho sofresse, que daqui a pouco outros meninos da idade dele vão perceber que ele não se comunica da mesma forma ou com a mesma fluidez, etc etc e senti e sinto, por vezes, medo daquilo que ele possa passar. Mas ele tem e vai ter sempre uma família que acredita nele e acha que ele é capaz de tudo, que o vai apoiar sempre e que está disposta a fazer qualquer sacrifício pela felicidade dele. E ele vai crescer a saber isso e portanto eu sei que ele vai ser sempre, maioritariamente, feliz. Eu respeito a liberdade de escolha e respeito que as pessoas escolham algo diferente daquilo que eu escolheria. Mas acredito naquilo que estou a dizer, essa é a minha posição pessoal relativamente a este assunto.
Ah, e um aparte...eu nunca me integrei muito, socialmente, em criança e adolescente. Sempre fui diferente, não sei porquê, sempre pensei de forma diferente das minhas colegas, sempre tive preocupações diferentes, sempre reclamei mais, sempre discordei mais, sempre fui mais vocal em relação ao que não concordava. E lembro-me que houve uns anos em que fui alvo de chacota, principalmente para os meninos da turma. Entre o meu 7º e 8º ano. Eu sofria muito e eles sabiam e gostavam disso e faziam mais por eu sofrer e eles conseguirem ver que me afetavam a esse ponto. Para mim, naquela altura, aquilo era o fim do mundo. Aqueles anos poderiam ter determinado o percurso da minha vida. Os meus pais não me ajudaram, eu chorava e explicava-lhes o que acontecia e eles na verdade ficavam irritados por eu me deixar afetar e ainda me diziam coisas como "ah se fosses minha colega eu também gozava contigo porque tu ligas, se não ligasses eles não gozavam contigo". Eu acho que tive sorte porque depois conheci as pessoas certas que me ajudaram e eu consegui erguer-me e ver mais do que aquilo que acontecia. E um dia (eu era muito bem comportada e nunca me metia em sarilhos nas aulas) eu explodi de raiva, depois de uns meninos me terem mandado umas bocas (já nem me lembro que tipo de bocas) no meio de uma aula, sempre pela calada sem o professor ver. Eu levantei-me e virei-me para trás, enfiei a mesa deles contra eles e encurralei-os na parede, o professor a pedir-me para eu parar e eu ignorei-o. E baixinho, enquanto todos os outros se riam da situação, eu disse a esses dois meninos "é a última vez que vocês me mandam uma boca, é a última vez que falam comigo dessa forma, porque da próxima vez eu não vou parar e rebento a mesa em cima de vocês.". Depois parei de empurrar a mesa, pedi desculpa ao professor e saí a meio da aula. Eles nunca mais me mandaram nenhuma boca, nunca mais. E nunca mais nenhum dos outros se atreveu a mandar boca nenhuma. Isto já eu andava no 9º ano. A minha vida tornou-se muito mais fácil, eu fiquei mais confiante e depois comecei a ver-me como eu realmente era e passei a aceitar-me. E embora até hoje seja relativamente sensível ao que os outros me dizem, confio em mim e no meu potencial e sei quem sou, e isso permite-me gostar de mim e saber que dou o meu melhor. E por isso não lamento nada e consigo pôr as coisas más para trás. Aquele dia mudou a minha vida e eu só tive coragem de fazer aquilo porque naquele ano tinha conhecido uma pessoa nova que tinha entrado na minha turma que tinha visto o que acontecia e me tinha dado várias dicas de como agir numa próxima situação. E foi a pessoa certa, no momento certo. Como disse, eu tive sorte em conhecer quem conheci, mas na verdade poderia ter funcionado da mesma forma se a minha família não tivesse desvalorizado e me tivesse aconselhado, tivesse mostrado preocupação com o meu bem-estar, etc. Ou seja, há sempre uma parte que nos cabe a nós, mães e pais, e essa parte é determinante e pode significar tudo.

Nunca estive tão de acordo. Ao ler isto parece que tinha sido eu a escrever.

Tambem sofri muito de bullying e não sofro de nenhuma deficiencia. Tenho um filho que tomos me disiam para abortar na gravidez e hoje é uma criança saudavel. Se algum dia pensei em aborta-lo? Nunca. Nao ia conseguir conviver com essa culpa.

Trabalhei com pessoas com T21 e acreditem fiquei chocada comigo mesma porque conseguem ser muito mais iindependentes do que imaginamos. Hoje em dia já existem pessoas com T21 que trabalham, estudam, vivem sozinhas. Infelizmente a nossa sociedade ainda está muito fechada para aceitar a diferença. Somos alvo de chacota por causa da raça e da opçao sexual, etc. O autismo (o profundo principalmente) assusta muito mais e não é detetavel na gravidez.

Retrato de Sónia Maria Santos
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Desde:
13.09.2012

Olá a todas;

Creio ser importante reiterar que a autora do tópico não teve a menor intenção de criar uma discussão sobre os prós e contras relativamente ao aborto.

Por outro lado, é importante fazer uma distinção clara entre IVG e IMG. O que se discute aqui é a decisão de interromper uma gestação por motivos claramente médicos. Uma IVG é a interrupção voluntária da gravidez sem qualquer motivo a não ser a vontade expressa da mulher em não prosseguir com a gestação. Pelo contrário, a IMG é um recurso clínico colocado à disposição de uma mulher grávida de um feto inviável ou que, não sendo inviável, padece de patologia grave a ponto de comprometer a sua qualidade de vida ou de acarretar grandes anomalias. É isto que se discute.

Diz-se aqui por várias vezes que uma mulher que decide interromper uma gravidez após descobrir que o filho que gera sofre de malformações graves, o faz por si e não por esse filho; que decide interromper para não atrapalhar a sua vida e usa a desculpa do sofrimento do filho para justificar a sua decisão comodista. Ora, eu não podia estar mais em desacordo com isto. Nenhuma mulher consciente decide fazer IMG apenas porque vê a sua vida comprometida. Fá-lo porque, infelizmente, precisa de ponderar se tem ou não condições para prosseguir. Quando falo de condições, não me refiro apenas a condições psíquicas ou emocionais, mas sim ao lado mais prosaico da vida. Li aqui que muitas mães seriam capazes de mudar de cidade, de país e até de deixarem de trabalhar para poder assumir, elas mesmas, os cuidados e educação de um filho especial. Isto é de louvar mas, pergunto eu, quantas mulheres reúnem de facto condições para tomarem esse tipo de decisão? Quantas mulheres, muitas até já mães de outros filhos, poderiam efetivamente abdicar do trabalho para ficarem com aquele filho em casa? Do que viveriam depois? E os outros filhos, como ficariam? E a família, viveria de quê? E o custo das terapias exigidas ou adequadas a algumas patologias, quem suportaria esses custos?

Não tenhamos ilusões, o mundo não é como queremos que fosse, é como é e quanto a factos não há argumentos. Para não falar noutros casos em termos hipotéticos, falo do meu. Eu nasci cega, os meus pais eram pobres e já tinham 3 filhos antes de eu cá aparecer. Se eu tivesse nascido com outra patologia mais limitadora, como fariam eles? Deixar de trabalhar era impensável, mudar de cidade e de país estava fora até dos pensamentos e dinheiro para fisioterapia, terapia da fala, aulas de postura corporal, em fim, o montão de terapias existentes mas que só estão ao alcance de uma minoria muito pequena, dinheiro esse que eles não tinham, nem que se empenhassem até à 5ª casa.

Se há muita coragem em quem decide avançar, não há menos em quem decide não o fazer. Não me parece nada justo afirmar que quem decide interromper o faz por comodismo e considerar que quem decide avançar, o faz pelas melhores razões. Ora, eu também posso considerar que quem decide avançar com uma gestação sabendo que vai trazer ao mundo um filho deficiente, o faz por cobardia e não por nobreza.

Falou-se aqui muito da felicidade; diz-se que os meninos especiais são muito felizes porque não têm os mesmos modelos de exigência que os demais meninos; diz-se que não pedem quase nada e que ficam felizes com o pouco que lhes dão; diz-se que valorizam afeto e carinho em detrimento de objetos. Se calhar é verdade. Mas, o que é afinal a felicidade? Dá para apresentar aqui uma definição deste estado de espírito? Será que na maioria das vezes não se está a confundir felicidade com satisfação básica?

Pois olhem, para mim, felicidade é poder usufruir de um fim de semana em casa de volta dos meus livros, mp3, da minha cozinha, da minha bimby, enquanto os meus filhos moldam biscoitos na bancada da cozinha; a cereja no topo do bolo é se lá fora houver chuva e eu a conseguir ouvir a bater nas janelas. Este é um dos meus momentos de felicidade absoluta, num daqueles cenários edílicos em que consigo reunir nos 115M/2 do meu apartamento o que de facto é relevante na minha vida. Já para o meu marido, cego como eu e técnico de redes informáticas de profissão, a felicidade suprema consiste em andar sempre em movimento, passeios para aqui e para ali, viagens e caminhadas na praia ou no campo. Acredito que para cada um de nós exista uma definição própria de felicidade, pelo que considerar que A é mais feliz do que B não passa de uma conjetura ou um simples juízo de valor. Agora, uma coisa é certa, ninguém é feliz quando lhe falta o básico, disso tenho certeza e provavelmente estaremos de acordo quanto a este ponto.

Muitos dos meninos especiais vivem confinados em instituições ou em casa onde passam montes de tempo a fazer nada, sozinhos ou não, mas sempre com menos do que precisariam. Sabem, eu felizmente ando muito na rua. Não gosto de praia mas vou porque os meus filhos gostam. costumo ir para o Tamariz que é uma praia acessível. Existe um espaço da câmara Municipal que disponibiliza espreguiçadeiras e toldos, bem como pessoas para levar utentes à água em utensílios de mobilidade reduzida. Vou para lá porque uso transportes públicos e assim já não tenho que levar chapéus nem nada do tipo. O que lá não faltam são utentes trazidos por instituições... alguns deles são bebés e crianças aprisionados em corpos de adultos. Se são felizes não sei, mas sei que essa felicidade não pode depender da capacidade de reivindicação porque estes meninos não têm qualquer capacidade de reivindicar seja o que for. Nem de reivindicar, nem de pedir, nem de reclamar, nem de se queixar ou denunciar. Simplesmente não têm nenhuma dessas capacidades. São dependentes e nem sequer sabem se estão tristes ou alegres porque muitos não têm capacidade até de sentir ou de mostrar emoções. Uns nem falam, muitos palram como bebés de poucos meses. Se eu seria capaz de trazer ao mundo um ser nestas condições, sabendo previamente que era isso que iria acontecer? Não, de todo. Nem pensar numa coisa dessas. Se é egoísmo? Não sei, mas se for, então assumo que seria egoísta neste ponto. Também pode ser egoísmo optar por ter esse filho, sabendo o que o espera e que pouco ou nada podemos fazer para mudar este cenário.

Tenho uma amiga que tem um irmão especial. Tem epilepsia e um atraso mental notório. Era a mãe que cuidava dele até há 2 meses atrás. Ele já tem 45 anos e a mãe perto de 70. Há 2 meses teve um problema de saúde e ficou internada. A irmã, desesperada, pois tem 2 filhos, um emprego do qual não pode prescindir, não teve outro remédio a não ser procurar uma instituição que o recebesse. É lá que está. Não lhe falta nada em termos básicos, mas ficar o dia todo confinado num espaço a fazer pouco mais do que nada, é ter o suficiente? Deixo a questão.

Neste tipo de discussão não se pretende mudar a forma de pensar de ninguém, mas sim trocar ideias a fim de conhecer os argumentos de ambos os lados.

Enquanto cega, eu lido diariamente com a diferença. Uma diferença mínima se comparada a deficiências profundas, mas ainda assim uma grande diferença, desde logo porque, como sabem, o mundo está totalmente pensado para quem consegue ver. 2 Terços de toda a informação que vamos armazenando entra-nos pelos olhos a dentro; um símbolo indica um caminho; um ícone transmite uma mensagem, um logotipo identifica algo. Acham que para um cego é tudo fácil? Eu costumo dizer que ser cego até é simples, desde que se seja apenas cego e se tenha acesso às coisas certas na altura certa. No entanto, de fácil isto nada tem. É uma luta diária contra muitos obstáculos, uns mais explícitos do que outros. O que me faz continuar a querer cá andar é o facto de eu ser capaz de enfrentar esta luta; se fosse para viver confinada num corpo que não me obedecesse ou numa mente muito menor do que o meu próprio corpo, decerto que preferiria não aterrar aqui.

desculpem o testamento, mas este é, de facto, um tema tão interessante quanto controverso.

P.S. Fsilsa és uma querida. Percebo o teu ponto de vista, da mesma forma que compreendes o meu. E sim, tens toda a razão, eu não sou nada infeliz. Mas eu estou na posse da minha autonomia, individualidade e capacidade de decisão.

beijos a todas

SMSantos

Retrato de Tyta.B
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31.07.2015

Aplausos Sónia Maria Santos Palmas!

Retrato de SU NEVES
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19.11.2012

Alguém que me compreenda...poça parece que as pessoas ou não leram o post ou quiseram julgar tão rápido que se esqueceram do tópico. Concordo plenamente com tudo o que disse. Obrigada pela seu testemunho.

2001 nasceu o meu Leandro
Treinante 2º viagem desde 09/2014

Retrato de Videl86
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Desde:
18.07.2014

Nós não temos de ter todas a mesma opinião, mas todas temos direito à nossa opinião, isso não significa que há uma verdade absoluta, apenas significa que somos diferentes e portanto temos perspetivas diferentes. Não é por discordarmos que ofendemos alguém Piscar o olho

Sónia, só um detalhe, eu referi mudar de país ou mesmo colocar as crianças em ensino doméstico mas não é por ter uma vida privilegiada, mas sim porque já iniciei vários projetos por conta própria que me permitam um dia, se for necessário, fazê-lo. Porque fui empreendedora e assumi alguns riscos e até agora tem corrido como o esperado. E porque me contento com muito pouco. E claro, tenho de admitir que tenho alguma sorte e certas vantagens que outras pessoas talvez não tenham, como não ter despesas com a minha casa (para além das contas normais), mas também estou disposta a abdicar de muitas coisas que muita gente não está, até porque vejo quase todas as situações como temporárias e não sentenças de vida. Agora claro, uma pessoa que não teve pleno controlo da sua natalidade, que teve situações de vida inesperadas (morte de companheiro, por exemplo), etc, poderia não ter tanta facilidade como eu, mas de resto o que eu estou afazer para libertar a minha vida está ao alcance de muitos, desde que estejam dispostos a abdicar de certas coisas, claro. E eu não julgo nem condeno quem pensa diferente ou faz diferente nesse sentido, apenas tentei expôr a minha forma de pensar relativamente a esta situação Sorriso

08 de dezembro de 2014 <3
49,5 cm e 2,920 de amor e doçura <3

Retrato de guialmi
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13.07.2013

A Sónia Maria Santos expressou tudo o que poderia dizer sobre este assunto. Não faço a mínima ideia do que faria se tivesse que tomar a decisão de interromper ou não a gravidez de um filho com deficiência severa. Felizmente fui poupada a essa dor na única gravidez que tive (e não terei outra). A minha razão diz-me que sim, que interromperia; o coração poderia ditar outra coisa, não sei.
Curiosamente, ninguém aqui falou num aspecto que me parece incontornável: e o pai do bebé? não teria uma palavra a dizer? é uma decisão exclusiva da mãe? ou do casal que o gerou?
Outra questão que tenho pensado por estes dias e que, não sendo igual a esta, acaba por estar ligada, é o prolongamento da vida de uma criança com deficiência ou doença irreversível e causadora de grande sofrimento. Acompanho o fb da mãe de uma criança com parelesia cerebral e com outros problemas de saúde, o mais grave dos quais levou o intestino a deixar de funcionar. os últimos meses têm sido, pela descrição, de um sofrimento atroz, num declínio físico irreversível. Eu olho para aquela mãe, tão louvada pela sua coragem, e penso: não estará na hora de deixar esta criança partir? Manter a vida de uma criança nestas condições é altruísmo ou egoísmo? (e não a estou a julgar, atenção, estou a refletir apenas)
Não, realmente estas questões não são mesmo nada simples.

Retrato de carlaper
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Desde:
11.10.2011

Sónia,
não discordo totalmente do que diz, dependendo, claro, do grau de deficiência de que falamos. Não podemos definir a felicidade, é um facto, mas não podemos deduzir quem é ou não feliz, segundo apenas os nossos padrões. A Sónia é invisual e construiu uma vida como qualquer outra pessoa que não o é, mas quantas mães decidiriam levar uma gravidez sabendo de antemão que o seu filho seria cego? Temeriam tanto essa diferença como qualquer outra patologia mais grave, simplesmente porque é uma realidade que desconhecem e não a saberiam encaixar na sua vida. Seria então justo que se abortassem todos os cegos, ou todos os anões por ex, ou todos os portadores da t21, simplesmente porque tememos o desconhecido e não saberíamos se iriam ser independentes, infelizes, gozados e inadaptados? Existe o medo sim, e é legítimo, eu também o sentiria, e também não sei como reagiria. Mas sei que na altura tomaria a decisão mais sábia.
Há num ponto que discordo totalmente, quando diz que os seus pais, sem possibilidades e com mais 3 filhos não saberiam o que fazer se a Sónia tivesse algo mais incapacitante. Concerteza fariam o melhor que conseguissem, ainda que isso não fosse proporcionar-lhe as melhores terapias.
Preocupa-mo-nos em gerar alguém que mais tarde poderá ficar confinado a uma instituição, mas não nos preocupamos e já é natural deixar os nossos velhotes no mesmo estado. No fundo, vai tudo dar ao mesmo. O que difere é o nosso medo perante o desconhecido.
Tive um caso de família em que havia uma deficiência profunda, o dinheiro também não abundava e fez-se o que se pode. Nunca vi nos seus pais, irmãos e avós um momento qualquer de desespero e de infelicidade. Foi, durante o tempo que viveu muito amada e nunca vi sinal de arrependimento pela sua presença ,e sim, também esteve numa instituição nos últimos tempos da sua vida.
beijinho

Retrato de guialmi
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Desde:
13.07.2013

carlaper escreveu:

Preocupa-mo-nos em gerar alguém que mais tarde poderá ficar confinado a uma instituição, mas não nos preocupamos e já é natural deixar os nossos velhotes no mesmo estado. No fundo, vai tudo dar ao mesmo. O que difere é o nosso medo perante o desconhecido.
Tive um caso de família em que havia uma deficiência profunda, o dinheiro também não abundava e fez-se o que se pode. Nunca vi nos seus pais, irmãos e avós um momento qualquer de desespero e de infelicidade. Foi, durante o tempo que viveu muito amada e nunca vi sinal de arrependimento pela sua presença ,e sim, também esteve numa instituição nos últimos tempos da sua vida.
beijinho

Mas a mim preocupa-me e muito a possibilidade de um dia não poder cuidar da minha mãe (já não tenho pai) e ter de a pôr numa instituição! Tudo farei para que tal não aconteça e, conhecendo-a como a conheço, espero que parta deste mundo antes de estar numa situação de dependência de terceiros. Para ela será o inferno na terra, ter de depender dos outros para as funções básicas do quotidiano.
A questão é mesmo a qualidade da vida que um deficiente pode ou não ter e isso, infelizmente, e sendo pragmáticos, depende imenso dos recursos financeiros da família. É a diferença entre poder deixar de trabalhar ou não (e considerando, no caso de haver outros filhos, também não é justo sujeitá-los a uma infância e adolescência de privações), entre poder ter o deficiente em casa (com pessoal, habitação e equipamentos ajustados) ou não, entre poder aceder a terapias ou não. Amor e uma cabana não chegam nem para adultos saudáveis, quanto mais para pessoas com deficiências severas.
Ainda há pouco tempo visitei uma CERCI e se havia utentes com um grau de autonomia muito razoável, outros têm um comprometimento cognitivo tão profundo e grave que nem consciência de si mesmos têm. São tratados com carinho, têm cuidados básicos de saúde e higiene, mas que vida é aquela...não era o que eu queria para um filho meu, nunca.
Se a qualquer momento nós ou os que nos são próximos podemos ficar assim? sim, podemos, mas aqui existe uma decisão a tomar, é diferente, e estamos necessariamente a decidir por alguém que, depois de nascido, depois de adulto, não terá nunca a capacidade de escolha sobre o seu próprio destino (falo, claro, de deficiências mentais severas).

Retrato de carlaper
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Desde:
11.10.2011

O problema guialmi, é que existe sempre medo perante a diferença, seja ela ligeira ou severa. E esse medo molda-nos o pensamento: que vida será aquela, não quero isso para um filho meu, isso não é vida. Eu por mais que tente também não consigo pôr-me no lugar da Sónia, pois nunca tive a experiência de não ver. Provavelmente, se soubesse de antemão que iria ter um filho invisual, pensava duas vezes se o iria colocar no mundo, pois não se enquadraria no meu padrão de experiências, e não saberia como lidar com a situação. Pensaria: Poderá ele ser feliz e realizado?
Nem a Sónia se conseguiria colocar no lugar de um portador de t21 e saber de antemão se esta pessoa é ou não feliz, apenas porque estas não se regem segundo os seus parâmetros.
É apenas a esta reflexão que eu queria chegar.

Retrato de aries23
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Desde:
18.07.2016

Acho que a questão é essa, dificilmente conseguiríamos colocar-nos no lugar de alguém com deficiència mental mais severa porque simplesmente temos capacidade cognitiva diferentes. E há uns que podem ser felizes, outros nem por isso, dependendo de n fatores e experiência da vida que possam ter. O que se pode falar é de possibilidades, depois cada um reflete sobre o assunto com as suas perspetivas. Mas nunca saberemos com a certeza.

Mas acho que por estas razões também tenho algum receio em fazer julgamento. Agora não estou a dizer que alguém aqui está a fazer julgamento, apenas é algo que andei a refletir por causa deste tema. Sinto que tenho mesmo sorte de não ter que tomar decisão difícil, e sinto um aperto no coração quando penso que há pessoas que precisaram de decidir. Cada mãe decide conforme o que acha e sente melhor, e isso de certeza que não é decidido com leveza independentemente da decisão. Pais que decidem abortar ficam com o peso para o resto da vida. Pais que decidem continuar também levam um peso na vida. Em alguma altura na vida poderão questionar se decidiram bem e sentirem-se mal. Imaginando a dor deles é horrível, pelo que não quereria que um comentário meu colocasse sal acidentalmente na ferida.

Repetindo, isto não tem a ver com algum julgamento que alguém possa ter feito, apenas foi o que refleti depois de pesnar neste tema. Desculpa o off topic mas apenas queria despejar isso da cabeça.

Retrato de moomis
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Desde:
01.10.2017

Eu não sei o que é viver com uma deficiência mas sei que não queria ser dependente.
Por acaso nunca pensei nesta perspectiva mas já me ocorreu muitas vezes a questão de ficar tetraplégica e creio que preferia morrer a ficar confinada a uma cama, a estar dependente para todas as tarefas básicas (como ir ao WC ou um simples desconforto, um ajustar da almofada - que é o mais básico que existe - seria dependente de outra pessoa.
Também não imagino o que seria perder as faculdades cognitivas, não ser capaz de gerir uma casa, as contas mais básicas, estar dependente da honestidade de terceiros por exemplo quando fosse para receber o troco ou ter de ser considerada incapaz e precisar que outros fizessem tudo por mim (podia não ser dependente fisicamente mas seria-o de todas as outras formas)...
Por isso pessoalmente preferia morrer a ficar assim. E a ideia de ser uma fonte de preocupações para os outros também não me agrada nada. Para mim isso não seria viver.
Já o viver com uma deficiência mas ser funcional, autónoma e independente parece-me uma situação completamente diferente.

Por outro lado, tinha certeza que abortaria caso tivesse um filho com deficiência mas essa certeza tornou-se na minha maior angústia e incerteza nesta última gravidez. Na morfológica verificaram que existia possibilidade de algo não estar bem e de repente vi-me incapaz de conceber a ideia de matar o meu filho que tinha já mais de 22 semanas, que eu já amava tanto. E aquilo que falaram aqui - em ambas as perspectivas - passou-me pela cabeça. Parecia-me que qualquer atitude que tomasse seria egoísta, tínhamos já falado disso em casal e estávamos de acordo, tenho um filho mais velho que seria afectado também. Nós sempre concordamos que eu abortaria.
Fizeram os cálculos das probabilidades novamente e o risco dava inferior ao de aborto pela amniocentese, por isso, não a fiz e percebi que não era capaz de abortar mesmo que isso fosse egoismo da minha parte. Expliquei ao meu marido e ele apoiou-me, optamos por não fazer o harmony no imediato pois seria apenas mais um teste de probabilidades (ficou apenas a hipótese de o fazer caso eu sentisse muita ansiedade).
E assim se desfizeram todas as minhas certezas que eu tinha. Não sei o que teria feito em caso de suspeita de deficiência muito grave. Há pouco mais de 1 ano garantia que abortava, hoje creio que apenas tenho a certeza que abortava apenas se tivesse garantida uma vida de sofrimento para o bebé.

Retrato de Albina Isabel Pinto
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09.03.2009

Tenho lido sem comentar, mas hoje é o dia.
Sempre fui contra o aborto. Como disse uma mamã, a T21 não é nada comparado com outras deficiências que não são detectadas. Nada nos garante que temos um filho perfeito e que por algum motivo fica dependente mais tarde.
Mas (há sempre um mas), aqui ha uns meses não sei se se lembram deu una reportagem acerca de uma appacdm, em que literalmente humilhavam aquelas crianças (sim, porque para mim são crianças) e nessa altura (estava eu grávida do mais novo) fez se um clique e eu disse "agora entendo porque preferem abortar".
Nada é LINEAR, e nem falo em casos de invisuais, porque esses podem fazer a vida normal, mas casos em que não se podem defender, que estão completamente à mercê de estranhos...
Sabem o que vos digo?
Que deus ne livre de ter que fazer semelhante escolha, porque decidir sobre a vida ou morte de outro ser, segundo os nossos padrões e experiências pessoais... Não é justo nem para nós, nem para eles

Retrato de Tania Rocha
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Desde:
12.10.2007

É muito difícil nos colocarmos no lugar de uma criança com uma qualquer doença incapacitante. Se eu tivesse de depender de outros seria menos feliz?

Afinal, cada um de nós, de certa forma não depende de outros?

Quantas pessoas, têm tudo para serem felizes e simplesmente não conseguem. Por limitações que muitas vezes nos colocamos a nós próprios ou que vão surgindo ao longo da vida, devido a traumas ou outras situações. Depressões, TOC, Bipolaridade, agorafobia, entre tantos outras perturbações.

Sempre achei que era a favor do aborto. Acho que cada casal deve poder ter o direito de decidir como viver a sua vida. Se têm capacidade económica para suportar e dar uma vida condigna a um filho com problemas de saúde, sejam eles quais forem.

Nas minhas duas gestações, - o rastreio do 1º trimestre demonstrou que o meu filho tinha a predominância de 1/10 de ter T21, - 1º filho um resultado destes pânico, choro, mas a amniocentese revelou que estava tudo bem, no caso da minha filha, mesmo resultado, um pouco pior a probabilidade era de 1/4, na ecografia a OB preparou-me para o pior, parecia haver fortes indícios de que ela teria T21, fiz a amniocentese com a certeza de que daria positivo, preparei-me para o pior e em mil conversas com o meu marido descordamos sempre ele não queria saber e ter a criança à mesma, eu não queria levar a gravidez para a frente... o resultado veio positivo... e o meu mundo desabou, soube que era uma menina (eu queria mt ter uma menina). Chorei muito e não por ir ter uma menina com T21, mas porque descobri que afinal não conseguia abortar.

Senti que a OB (indiretamente) me estava a tentar convencer de que seria o melhor, interromper. Não gostei da atitude dela e mudei de médico. Novo médico, novas ecografias... inexplicavelmente este médico não via na ecografia qualquer anomalia, pediu novos exames, o mesmo resultado. Aceitei e não me quis submeter a mais testes, estava decidido ela ia nascer e fosse o que Deus quisesse... o médico sempre a dizer que pelas ECO's a criança não apresentava sinais de que teria T21. Ela nasceu, e parece que o médico tinha razão... Alguma coisa correu mal com a amniocentese, a minha filha nasceu saudável.

Mas com a minha experiência pessoal, cheguei à conclusão de que todos nós, com ou sem doenças limitativas... acabamos sempre por ser julgados, criticados, alvo de preconceitos... A sociedade parece estar formatada para repugnar todas as pessoas e comportamentos que saiam do suposto "normal".

Tânia Bento

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SK.
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14.08.2012

Olá!

Tenho acompanhado o tópico e depois de ler algumas reflexões bastante interessantes e pertinentes, venho também deixar a minha. A autora do tópico começou por referir a T21 e percebi que além desta trissomia se foram debatendo ideias tendo em conta outras deficiências mais graves. Eu vou deixar a minha opinião apenas sobre a T21 pois é sobre a qual posso falar com algum conhecimento e porque tanto aqui como noutras publicações ou conversas com conhecidos, apercebo-me que ainda hoje existe um grande desconhecimento sobre esta trissomia.

A minha irmã nasceu com Trissomia 21. Os meus pais não tiveram na mesa a opção da interrupção da gravidez porque na altura nada indicou que ela iria nascer com alguma diferença. Isto foi há quase 30 anos, numa altura em que a informação e apoios que existiam sobre esta condição eram poucos e no início ninguém lhe soube explicar o que realmente era a T21. Apenas que a menina iria ter atraso no desenvolvimento que poderia condicionar a possibilidade de uma vida "normal". Talvez não fosse um adulto independente que pudesse viver normalmente em sociedade. Mas isto foi há 30 anos. E é neste ponto que eu penso existir ainda algum mito em relação ao que realmente é a Trissomia 21.

Ainda se diz várias vezes, e até neste tópico li algo do género, que uma pessoa com T21 será dependente de alguém para o resto da vida, que serão gozados e humilhados, que é injusto deixá-los sofrer por causa da diferença que poderão vir a ter. Uma coisa que eu aprendi ao viver de perto com esta trissomia, tanto através da minha irmã como de outras famílias que ainda hoje acompanho, é que a questão da dependência está relacionada em grande escala com a forma como a criança é estimulada e com o apoio no seu desenvolvimento logo desde a nascença. A T21 pode ter vários graus de diferença cognitiva, uns mais leves, outros mais severos. Mas em todos eles o trabalho feito pelos pais, educadores, psicólogos, etc é o factor mais importante que irá definir se a pessoa poderá ser independente ou não. Conheci casos de T21 de um grau mais leve que o da minha irmã mas que eram quase o que algumas pessoas chamam de "vegetais". Não articulavam uma frase, com vocabulário limitado, a capacidade motora completamente entorpecida. Conheci também casos de grau severo que resultaram em crianças completamente autónomas e que frequentaram o ensino regular, formaram-se e alguns hoje em dia já casaram e vivem de forma independente nas suas casas. A diferença não foi o grau de dificuldade da T21 mas sim o apoio ao desenvolvimento que estas pessoas tiveram a partir do momento em que nasceram. Uns foram tratados pelos pais como "o coitanho que nasceu diferente", confinados a passar o dia no quarto ou em instituições onde os deixavam ao abandono dia após dia. Outros tiveram famílias que procuraram puxar pelos filhos o máximo possível, procuraram ajudas e terapias, cada um dentro das suas possibilidades. Os meus pais na altura não tiveram acesso à informação toda que existe hoje na internet, nem a grandes instituições ou actividades como as que existem actualmente. Fizeram o que puderam em casa e com os meios que tinham disponíveis e foram aprendendo com o tempo e com algumas pessoas especiais que nos foram aparecendo pelo caminho. E eu vi a minha irmã, portadora de T21, crescer de uma forma "normal", frequentar o ensino regular com um atraso de apenas 1 ano, e fazer tudo o que eu fiz, incluindo ter um part-time de Verão aos 16 anos e sair com os amigos para ir ao cinema. Ela certamente que não iria ser uma pessoa dependente que tivesse de ficar confinada a uma instituição. Infelizmente já não está entre nós e não poderemos saber como seria a sua vida adulta mas da forma como as coisas estavam encaminhadas certamente que não seria muito diferente da minha. Com as suas diferenças, mas nenhuma "desgraça" como algumas pessoas pensam. Cada caso é um caso, há casos de sucesso e há outros que realmente trouxeram amargura ao seio familiar. Mas isto são coisas que nunca se podem saber no momento da gravidez ou do nascimento. Tal como podemos ter um filho "normal" e mesmo assim não saber se ele irá ser feliz ou bem sucedido.

Sobre algumas questões que foram levantadas...
As pessoas portadoras de T21 têm tanta capacidade de serem felizes como as restantes, a felicidade depende apenas do meio envolvente, assim como para qualquer pessoa. E em relação à ideia de se poder prejudicar os restantes filhos por causa da atenção que uma criança com T21 requer, mais uma vez isto depende exclusivamente dos pais/família. Eu nunca senti que os meus pais me menosprezassem, ou que tive uma infância prejudicada, por terem uma filha com necessidades especiais. Senti que tive algumas responsabilidades acrescidas mas nunca vi isso como um fardo, apenas como algo que fazia parte do nosso conceito de família.

Há uns tempos perguntei à minha mãe se ela teria tomado alguma decisão diferente caso tivessem diagnosticado a T21 durante a gravidez. Ela respondeu que com a falta de informação que tinha sobre a doença e com o medo do desconhecido que provavelmente teria interrompido a gravidez. Mas que sabendo o que sabe hoje, sabendo realmente o que seria a Trissomia e como afectaria a minha irmã, esse seria o maior erro que alguma vez teria feito. Apesar de todo o esforço que foi feito, de todas as angústias sentidas, de todas as preocupações. E é por causa desta experiência que sempre ficou bem claro para mim que um diagnóstico exclusivo de Trissomia 21 nunca seria motivo para uma interrupção de gravidez. Se é difícil educar e acompanhar devidamente uma criança com essa patologia? É. Muito. Exige muito de todas as pessoas envolvidas e podem existir momentos de frustração e incapacidade. Mas isso também pode acontecer com uma criança "normal". Se ela pode ser vítima de bullying? Pode, tal como outra criança qualquer. Se pode ter dificuldades em encontrar um emprego e ter uma vida estável? Tal como qualquer um de nós. São crianças/adultos que terão de se esforçar e batalhar sempre mais que os outros mas não são incapazes, nem uns "coitadinhos" que vão obrigatoriamente ficar desamparados quando os pais lhes faltarem. Os pais é que têm de ter noção que irão precisar de dar 200% ou 300% em tudo desde o primeiro dia e é preciso que se sintam capazes de o fazer. Por isso é que estas são decisões tão pessoais e com opiniões tão diferentes. Neste assunto ninguém está certo ou errado. Cada um faz a escolha que considera acertada para si. A única coisa que acho sensata é que ninguém descarte uma gravidez com possíveis má formações sem ter todas as informações sobre o que realmente tem pela frente. Porque apesar do cenário não ser cor-de-rosa como esperávamos, pode também não ser tão negro como algumas pessoas o pintam.

Retrato de LiaF
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02.01.2016

SK. Obrigada pelo seu testemunho. Nada melhor do que quem conviveu de perto com a deficiência.

A trissomia 21 é ainda tão mal interpretada..