Sangue do Cordão Umbilical: transplantes, doenças tratáveis e utilizações experimentais | De Mãe para Mãe

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Sangue do Cordão Umbilical: transplantes, doenças tratáveis e utilizações experimentais

Durante séculos, o cordão umbilical foi considerado como sendo apenas um excedente do parto, até que em 1974 foi descrita, pela primeira vez, a existência de células estaminais hematopoiéticas no sangue do cordão umbilical. Esta descoberta despertou então o interesse da comunidade médica e científica por este tecido, tendo-se seguido vários anos de investigação e testes em modelos animais até à sua aplicação em humanos.

Transplantes hematopoiéticos com Sangue do Cordão Umbilical

O primeiro transplante de sangue do cordão umbilical foi realizado em 1988, por uma equipa franco-americana, para tratar uma criança com anemia de Fanconi. A amostra foi colhida no parto da irmã, tendo sido previamente confirmado por diagnóstico pré-natal (durante a gestação) a ausência da doença e a compatibilidade com o irmão. Um ano mais tarde, 98% das células sanguíneas e do sistema imunitário eram originárias das células do dador. O doente não desenvolveu doença do enxerto contra o hospedeiro e 25 anos depois continua saudável.

Na sequência do sucesso deste primeiro transplante surgiram, em 1992, os primeiros bancos de criopreservação de células estaminais do sangue do cordão umbilical, o que permitiu que em 1993 se realizassem os primeiros transplantes com sangue do cordão umbilical de dadores não relacionados em crianças.

Posteriormente, já em 1995, foi realizado o primeiro transplante de sangue do cordão umbilical num doente adulto com leucemia. A utilização terapêutica do sangue do cordão umbilical tornou-se então ainda mais relevante, levando a um crescimento no armazenamento e na utilização desta fonte de células estaminais hematopoiéticas.

Mais de 26 anos após o primeiro transplante, já foram realizados mais de 35.000 transplantes de sangue do cordão umbilical, sendo evidente o seu valor terapêutico.
Em Portugal, o primeiro transplante com sangue do cordão umbilical foi realizado em 1994, no IPO de Lisboa, para tratar uma menina de 4 anos com Leucemia Mielóide Crónica. Neste caso, recorreu-se ao uso de uma amostra de sangue do cordão umbilical que pertencia a um irmão recém-nascido da criança doente.

Em 2007, foi utilizada a primeira amostra de sangue do cordão umbilical libertada de um banco familiar português, para tratar uma criança com uma imunodeficiência combinada severa (doença em que o sistema imunitário se encontra debilitado, não conseguindo combater infeções). Foi utilizada a amostra de sangue do cordão umbilical do irmão mais velho que tinha sido criopreservado à nascença.

Vantagens e desvantagens do Sangue do Cordão Umbilical

Atualmente, o sangue do cordão umbilical surge como uma fonte alternativa à medula óssea e ao sangue periférico mobilizado (células estaminais da medula óssea mobilizadas para a corrente sanguínea), com resultados semelhantes.

Quando comparado com estas fontes, o sangue do cordão umbilical apresenta diversas vantagens, tais como: a ausência de risco para o dador durante a colheita, a disponibilidade imediata, o maior potencial de proliferação, a menor incidência de doença do enxerto contra o hospedeiro e a menor necessidade de compatibilidade com o doente. No entanto, a dose de células numa só recolha pode ser baixa, não sendo possível obter uma segunda dose. Para ultrapassar esta limitação, estão em curso vários estudos com diferentes abordagens que poderão permitir a aplicação destas células em qualquer doente.

Outra vantagem do sangue do cordão umbilical é o facto de poder ser criopreservado e armazenado durante anos, sem perda significativa de viabilidade, estando por isso imediatamente disponível para transplante em caso de necessidade.

Doenças tratáveis com Sangue do Cordão Umbilical

As células estaminais hematopoiéticas do sangue do cordão umbilical têm um elevado potencial para a reconstituição do sistema hematopoiético após tratamentos de quimioterapia e radioterapia. A utilização que tem sido feita desde 1998 comprova esse potencial, tendo esta fonte de células estaminais sido usada para transplantar crianças e adultos.

Neste contexto, está descrito que o sangue do cordão umbilical pode ser utilizado, à semelhança da medula óssea e do sangue periférico mobilizado, para tratar cerca de 80 doenças, abrangendo 5 grupos patológicos: doenças oncológicas (como leucemias, linfomas e alguns tumores sólidos); doenças metabólicas hereditárias (como por exemplo, Doença de Krabbe e Síndroma de Hurler); hemoglobinopatias (como talassemias e anemia falciforme); imunodeficiências (entre as quais imunodeficiências combinadas severas e síndrome de DiGeorge); deficiências medulares (onde se incluem anemia de Fanconi, anemia aplástica, entre outras); e ainda, fora destes grupos, a osteopetrose.

Na Europa, segundo o último estudo da Sociedade Europeia para Transplante de Sangue e Medula Óssea, publicado em 2013, o sangue do cordão umbilical foi aplicado maioritariamente em leucemias (cerca de 50% do total) e em doenças mieloproliferativas e imunodeficiências primárias (20% do total dos transplantes de sangue do cordão umbilical realizados durante esse ano).

Vários estudos demonstram que o número de células é o fator mais importante para que o transplante tenha sucesso, e que algum grau de incompatibilidade é aceitável nos transplantes com sangue do cordão umbilical.

Utilizações experimentais do Sangue do Cordão Umbilical

O sangue do cordão umbilical contém outras populações de células estaminais para além das células estaminais hematopoiéticas, o que tem despertado interesse para a utilização desta fonte de células estaminais fora do contexto hemato-oncológico, nomeadamente na área da medicina regenerativa. São vários os estudos realizados em modelos animais e em contexto de ensaios clínicos (testes em humanos) que testam a utilização do sangue do cordão umbilical para o tratamento de várias patologias.

A área com mais resultados publicados sobre o uso de sangue do cordão umbilical fora do contexto hemato oncológico é a área dos distúrbios neurológicos (que inclui a paralisia cerebral, a encefalopatia hipóxico isquémica neonatal e o traumatismo crânio encefálico). Neste contexto, nos últimos anos foram também utilizadas várias amostras de sangue do cordão umbilical armazenadas em bancos familiares portugueses para o tratamento de crianças com paralisia cerebral em contexto experimental. Nestes casos, foram utilizadas as amostras das próprias crianças que tinham sido criopreservadas à nascença.

No entanto, para além destas, existe um número crescente de doenças onde o potencial do sangue do cordão umbilical se encontra em avaliação, tais como diabetes, Lúpus, doenças gastrointestinais, disfunções hepáticas ou mesmo lesões vasculares, entre outras.

Para o crescimento das aplicações nestas áreas muito têm contribuído as amostras criopreservadas em bancos familiares. Segundo dados do siteParent’s Guide to Cord Blood Foundation”, em todo o mundo são já mais de 2,5 milhões as amostras de sangue do cordão umbilical criopreservadas em bancos familiares. O mesmo site refere ainda que até 2012 foram libertadas 900 amostras de bancos familiares. Destas, cerca de metade foram utilizadas para tratar irmãos e as restantes para infusão no próprio (autólogo). Muitas destas aplicações autólogas foram realizadas em contexto experimental, contribuindo para o desenvolvimento de novas terapêuticas.

Assim, para além da importância atual do sangue do cordão umbilical nos transplantes hematopoiéticos para o tratamento de muitos doentes, é evidente o seu potencial para o tratamento de outras patologias fora do contexto hemato-oncológico.